Pela 16º ano consecutivo, o Grupo VOTO realizou seu Investment Forum durante a Brazil Week em Nova York, desta vez na sede da BlackRock, maior gestora de capitais do mundo, com US$ 170 bilhões investidos na América Latina — dos quais US$ 50 bilhões no Brasil. O encontro manteve o seu propósito: aproximar empresários e lideranças brasileiras de investidores estrangeiros e discutir a inserção do país nos fluxos globais de capital, em vez de apenas reproduzir, no exterior, debates voltados ao público doméstico. Serviram como anfitriões Karim Miskulin, presidente do Grupo VOTO, Bruno Barino, diretor da BlackRock no Brasil, e Aitor Jauregui, head da América Latina da gestora.
Competitividade
A necessidade de ampliar a competitividade brasileira foi um dos temas que atravessaram o evento, do primeiro painel, que reuniu André Gerdau Johannpeter, chairman da Gerdau, e Eduardo Barbosa, CEO da Multiplica, ao encontro que encerrou a programação, entre o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e o ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à presidência Romeu Zema.
Gerdau surpreendeu ao apontar que, embora as operações de sua empresa na América do Sul e na América do Norte se equivalham em volume, a segunda representa atualmente 70% dos resultados do conglomerado. Isso, segundo ele, não se deve à eficiência das fábricas, mas às diferenças encontradas da porta para fora. “Enquanto quatro pessoas são suficientes para cuidar do processamento tributário das operações das nossas operações nos Estados Unidos, no Brasil são necessárias 120”, disse ele. “Para lidar com nosso sistema tributário, nem com IA. Se o país não mudar seus processos, não adianta automatizar.”
Conexão internacional
O fórum também dedicou espaço à discussão sobre tendências globais de investimento e a presença do Brasil nesse cenário. O painel reuniu três executivos da BlackRock, conhecedores profundos da América Latina e do Brasil: Pablo Goldberg, Benjamin Souza e Nicolas Gomez. Eles apontaram três vetores que hoje organizam o cenário econômico internacional.
O primeiro é o aumento da incerteza global provocado pelas decisões políticas do presidente Donald Trump. O segundo é o choque de oferta em energia e commodities agrícolas decorrente da guerra envolvendo o Irã. O terceiro é a aceleração dos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial e datacenters. Segundo os debatedores, esse mercado deve saltar de US$ 380 bilhões em 2025 para US$ 725 bilhões neste ano.
Na avaliação dos executivos, o Brasil está bem posicionado para se beneficiar dessas novas circunstâncias, especialmente em áreas ligadas a energia, commodities e infraestrutura digital. Eles ressaltaram, contudo, que essa oportunidade não se converterá automaticamente em investimentos. Um fenômeno mais sutil observado pelos gestores é a mudança no comportamento dos investidores internacionais. Se antes a diversificação era pensada por regiões, agora cresce a tendência de seleção mais criteriosa de países específicos, levando em conta fatores institucionais, previsibilidade regulatória e qualidade do ambiente de negócios. Países como Coreia do Sul foram citados como exemplos de destinos que ganharam destaque nesse novo modelo de alocação de capital.
Nesse contexto, a trajetória da dívida pública brasileira apareceu como um pontos de atenção. Pablo Goldberg afirmou que não existe um número exato de dívida em relação ao PIB que automaticamente afaste investidores do Brasil, mas disse que o mercado acompanha atentamente os sinais emitidos pelo setor público brasileiro. Segundo ele, caso não seja contido o ritmo de crescimento da dívida pública, que hoje se aproxima de 85% do PIB, a percepção de que o país está preso em uma “debt trap” pode se consolidar rapidamente. “Se esse número continuar crescendo ao ritmo de 6% ao ano sem que nada seja feito, não vai demorar a surgir a impressão de que o problema saiu do controle”, disse.
Agricultura
O agribusiness brasileiro foi tema central no painel de Craig Tashjian, CIO da gestora americana AMERRA Capital, e na intervenção de Eduardo Barbosa, da Multiplica.
Barbosa pôs ênfase nos gargalos logísticos que podem compor 15% do preço dos produtos agrícolas brasileiros. “Falta muita eficiência no agro, especialmente em transporte e armazenamento”, disse ele. Segundo Barbosa, o papel de gestoras como a Multiplica tem sido mostrar que gargalos são oportunidades e, assim, atrair capital de longo prazo para investimentos. “Investir no Brasil é enxergar valor além do óbvio”, afirmou.
Tashjian reconheceu que os fluxos de capital para o agribusiness brasileiro ainda ficam aquém do necessário, porque o investidor estrangeiro tem dificuldades com o ambiente de negócios e com a estrutura do setor agrícola. Mas destacou melhoras institucionais e na execução dos negócios. “Sei que os brasileiros questionam o seu Judiciário, mas operando há 30 anos no país, sei que houve uma evolução notável, especialmente em comparação com países vizinhos”, disse. “Além disso, se olhar com atenção, o investidor descobrirá que os agricultores brasileiros são os mais eficientes produtores de alimentos do mundo.” Segundo Tashjian, em dez anos os custos de produção e logística no Brasil caíram pela metade. “O ônus da infraestrutura está se desfazendo”, afirmou.
Conclusões
Para Karim Miskulin, o principal insight do VOTO Investment Forum foi que o mundo está aberto para o Brasil. “Temos muito mais espaço no cenário global do que a gente imagina, mas precisamos de mais estratégia, mais planejamento, mais construção de confiança e relacionamentos”, diz. “Temos um horizonte de oportunidades que poderemos aproveitar se derrubarmos barreiras como burocratização, insegurança jurídica e um sistema tributário excessivamente complexo.”




