Estive presente ontem no debate presidencial promovido pela Band entre Lula e Flávio Bolsonaro. Uma experiência sempre extraordinária, especialmente para quem, como eu, acompanha de perto a política brasileira e tem o privilégio de testemunhar, in loco, momentos tão importantes da história do nosso país.
Minha percepção é de que Flávio Bolsonaro saiu com uma pequena vantagem, embora o debate tenha apresentado um nível técnico bastante inferior ao esperado.
Flávio demonstrou maior domínio do tempo, organização das intervenções e capacidade de estruturar suas respostas. Entretanto, adotou um tom mais agressivo do que na sabatina da Globo, quando transmitiu maior serenidade e segurança. Algumas expressões e gestos também poderiam ter sido evitados, assim como a ausência de respostas diretas a determinados questionamentos.
Lula, por sua vez, teve algumas boas intervenções, especialmente quando procurou confrontar Flávio com questões relacionadas ao governo de seu pai, Jair Bolsonaro. A estratégia de trazer o ex-presidente para o centro do debate foi recorrente, embora, na minha avaliação, não tenha produzido resultados especialmente positivos para nenhum dos candidatos.
O que mais me surpreendeu, entretanto, foi o nervosismo de Lula. De um político com sua trajetória, que já exerceu a Presidência da República por três mandatos e está habituado aos grandes confrontos eleitorais, esperava-se maior tranquilidade e domínio do ambiente.
Em diversos momentos, Lula pareceu desorientado em relação ao posicionamento no palco e às câmeras. Sua equipe precisou gesticular repetidamente para indicar a direção correta, já que, em algumas ocasiões, o presidente se posicionava lateralmente ou mesmo de costas para as câmeras. Essa movimentação acabou transmitindo uma percepção de insegurança.
Mas foi nos bastidores que presenciei as cenas mais reveladoras da noite.
O que mais chamou minha atenção foi o comportamento do marqueteiro de Lula, Sidônio Palmeira. Visivelmente inquieto durante praticamente todo o debate, demonstrou um nervosismo surpreendente para alguém cuja função deveria ser justamente transmitir serenidade e segurança ao candidato.
Em duas ocasiões, suas intervenções provocaram interrupções no andamento do debate.
Outro episódio ocorreu durante as considerações finais de Flávio Bolsonaro, quando a primeira-dama Janja se manifestou em voz alta, levando um dos coordenadores de palco a se aproximar e solicitar que permanecesse em silêncio, para que o candidato pudesse concluir sua fala.
São episódios que, observados de perto, revelam como a tensão de uma disputa presidencial ultrapassa o palco e alcança também aqueles que cercam os candidatos.
E aqui cabe uma reflexão importante: qual seria, afinal, o formato mais produtivo para os debates presidenciais brasileiros?
Depois do que presenciei, considero que debates realizados sem a presença de público poderiam proporcionar um ambiente mais adequado à concentração dos candidatos, reduzindo interferências externas e permitindo maior atenção às perguntas e respostas.
Outra questão que merece ser discutida é o próprio modelo de confronto direto adotado no Brasil.
Quando os candidatos são colocados permanentemente frente a frente, com liberdade para escolher seus questionamentos, frequentemente as propostas acabam cedendo espaço aos ataques pessoais. O debate deixa de ser uma oportunidade para conhecer projetos de governo e se transforma em um embate de acusações, provocações e disputas sobre o passado.
É uma pena que, em um momento tão decisivo para o futuro do Brasil, não consigamos aproveitar melhor essas oportunidades para discutir temas fundamentais ao desenvolvimento econômico, à geração de oportunidades e à construção de uma sociedade com maior igualdade social.
O eleitor precisa conhecer as propostas, compreender as diferenças entre os projetos e avaliar quem reúne as melhores condições para governar o país.
Porque o Brasil precisa de debates que esclareçam, e não apenas de embates que acirrem.
Por fim, faço questão de registrar meu reconhecimento à Band pelo trabalho extraordinário realizado. Uma organização impecável, estrutura à altura da importância do evento e uma equipe de produção e coordenação que demonstrou enorme profissionalismo, mesmo diante das tensões naturais de uma disputa dessa magnitude.
Com a presença dos principais veículos de comunicação do país, a Band proporcionou mais um momento relevante da nossa história política.
Sinto-me sempre muito honrada por ter a oportunidade de acompanhar presencialmente acontecimentos dessa dimensão, testemunhando de perto alguns dos momentos que ajudam a escrever a história do Brasil.




