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ECONOMIA

A inflação cai, mas os preços ficam

Às vésperas da eleição, Copom pode cortar juros, mas custo de vida ainda desafia o governo

Há 26 dias • por Carlos Graieb
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8:03

O Brasil registrou deflação de 0,32% em agosto, segundo o IPCA, índice oficial de inflação ao consumidor, divulgado nesta sexta, 11. Em doze meses, o ritmo de alta dos preços desacelerou de 4,44% para 4,22%, voltando a ficar abaixo do teto de 4,5% do intervalo de tolerância da meta.

O número chega às vésperas de uma reunião particularmente importante do Comitê de Política Monetária do Banco Central. Na terça e na quarta-feira, dias 15 e 16, o Copom volta a decidir o nível da Selic, atualmente em 14% ao ano. Será a última reunião do colegiado antes do primeiro turno da eleição de outubro.

Corte de juros é a aposta dominante

A expectativa do mercado é de queda na Selic. Antes da divulgação do IPCA, os contratos de Opções de Copom — termômetro das expectativas do mercado porque seus preços refletem as apostas dos investidores sobre a próxima decisão do Banco Central — atribuíam 95% de probabilidade a uma redução de 0,25 pp, que levaria a Selic dos atuais 14% para 13,75%.

Os números recentes de atividade, entre eles a expansão de 0,5% do PIB no segundo trimestre e a queda de 0,4% do consumo das famílias, reforçavam a percepção de desaceleração da economia.

O IPCA de agosto fortaleceu essa leitura. Além da queda do índice geral, outras medidas usadas pelos economistas para identificar a tendência dos preços, deixando em segundo plano oscilações muito fortes e passageiras, também apresentaram melhora.

Há, no entanto, razões para cautela. Uma parcela importante da deflação veio da conta de luz: a energia elétrica residencial caiu 7,63%. Mas isso se deu em razão do bônus de Itaipu, um crédito extraordinário nas contas de luz decorrente da distribuição de recursos da hidrelétrica. Esse efeito é temporário e será revertido no próximo índice.

Além disso, há uma fator externo que cria incerteza. Nos Estados Unidos, o CPI, principal índice de preços ao consumidor, avançou 0,4% em agosto e 3,4% em 12 meses. Isso aumentou fortemente as apostas de que o Federal Reserve, equivalente americano do BC, também mexerá nos juros na próxima semana, mas na direção contrária. Lá, os mercados atribuiem cerca de 90% de probabilidade a uma alta de 0,25 pp na taxa básica de juros.

O que o Fed fizer – e, principalmente, o que sinalizar para os meses seguintes – interessa diretamente ao Brasil. Juros americanos mais altos podem fortalecer o dólar, alterar os fluxos de recursos para países emergentes e pressionar o câmbio brasileiro, com possíveis reflexos sobre a inflação. Isso não necessariamente impediria um novo corte da Selic, mas acrescenta uma razão para o Copom manter a cautela na definição do ritmo das próximas reduções.

O que o IPCA revela

Por trás do número geral de agosto, é preciso observar quais preços estão cedendo e quais continuam subindo. O diagnóstico é que a inflação no setor de serviços ainda resiste.

Os preços dos serviços menos sujeitos a oscilações ocasionais avançaram 0,40% e acumulam aproximadamente 5% em 12 meses. Nos serviços que dependem mais intensamente de trabalhadores e, portanto, têm custos mais impactados pelo valor dos salários, a inflação chega a 7,18% em 12 meses.

O mercado de trabalho ajuda a explicar essa resistência. Emprego e renda elevados sustentam a procura por serviços, enquanto os salários representam parcela importante dos custos das empresas do setor. Assim, mesmo quando alimentos, energia ou determinados bens ajudam a derrubar o IPCA, uma parte relevante da inflação tende a ceder mais lentamente.

É uma das razões pelas quais a expectativa predominante não é de uma redução rápida da Selic.

O que o IPCA esconde

Há outra dimensão da inflação que o resultado de agosto não consegue mostrar: o quanto os preços já subiram.

Em artigo publicado no Blog do IBRE-FGV, no início deste mês, o economista André Braz chama atenção para essa diferença ao analisar especificamente os alimentos. Entre janeiro de 2020 e junho de 2026, o IPCA acumulou aproximadamente 43,3%, enquanto a alimentação no domicílio avançou 67,5%. Mesmo depois da queda dos alimentos em julho, a diferença permanecia superior a 22 pontos percentuais.

A distinção é simples, mas importante em período eleitoral. A taxa de inflação mede a velocidade com que os preços aumentam. O nível de preços mostra onde eles chegaram depois de anos de aumentos acumulados. Uma inflação menor significa que o custo de vida está aumentando mais devagar; não significa que tenha retornado ao que já foi no passado.

E comida tem peso especialmente grande no orçamento de quem ganha menos. Braz observa que as famílias com rendimento de até dois salários mínimos destinavam 22% de suas despesas à alimentação. Para elas, portanto, uma alta da comida é sentida mais intensamente do que sugere um índice médio de inflação.

É possível, assim, que duas afirmações aparentemente contraditórias sejam verdadeiras ao mesmo tempo: a inflação brasileira está melhorando e as famílias continuam considerando o custo de vida muito alto.

Inflação, juros e eleição

Essa diferença entre a estatística e a percepção das famílias tem impacto nas eleições.

Se o Copom confirmar o corte esperado na próxima quarta-feira, o governo Lula chegará às últimas semanas da campanha podendo apontar para uma inflação de 12 meses novamente dentro do intervalo de tolerância da meta e para uma Selic em trajetória de queda.

A má notícia para o governo é que a redução dos juros chega tarde para produzir efeitos econômicos significativos antes do primeiro turno. Mudanças na Selic levam meses para percorrer os canais do crédito, do investimento, do consumo e da atividade.

O impacto político da decisão do Copom será, por isso, no máximo narrativo. O governo poderá apresentá-la como confirmação de que a inflação está cedendo e de que o ciclo de juros altos começa a ficar para trás.

A oposição, por sua vez, poderá lembrar que os juros permanecem muito elevados e explorar uma questão que a deflação de agosto não resolve: o aumento acumulado do custo de vida. Essa é a maior dificuldade para o governo.

O eleitor não experimenta a inflação uma vez por mês, quando o índice é divulgado. Ele a encontra no supermercado, no aluguel, nos serviços e nas demais despesas recorrentes. A quedas recente dos alimentos, por exemplo, ajuda, mas não devolve o poder de compra perdido ao longo dos últimos anos.

Lula chega, portanto, à reta final com indicadores de inflação mais favoráveis e a perspectiva de juros menores, mas sem garantia de que essa melhora seja percebida pelas famílias. A inflação está caindo, mas os preços acumulados continuam altos. E os juros podem começar a recuar, mas seus efeitos mais importantes sobre a economia serão sentidos somente depois das urnas.

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