A eleição presidencial está acontecendo por ondas. A primeira foi vivida por Flávio Bolsonaro e ocorreu no primeiro turno. Na comparação entre as pesquisas da véspera e da antevéspera já era possível ver o movimento que transformou uma desvantagem de três pontos em uma vantagem de dois pontos.
Após uma semana de intensa paralisia, Lula movimenta uma contraonda. Uma reportagem do Poder360 mostra que houve manifestações e passeatas em 37 grandes cidades do Brasil a favor do petista, coisa que não aconteceu em momento algum do primeiro turno.
A questão que se coloca é: a energia despejada nas ruas é suficiente para mudar o resultado do primeiro turno? A resposta curta: (ainda) não. Mas vamos por partes.
As manifestações são indispensáveis. Elas dão à campanha de Lula vigor, organicidade e um traço popular que não se viu no primeiro turno e, a rigor, nem na campanha de 2022. Isso ajuda a evitar o clima de derrota e de fato consumado que rondou fortemente a campanha até o final da semana passada. Portanto, a campanha foi resgatada da situação de quase morte.
O problema é que ela ainda não mostrou capacidade de atrair pessoas de fora do campo petista para endossar a campanha, como ocorreu em 2022.
Na eleição passada, Lula foi abraçado por várias lideranças de centro em cartas em defesa da democracia e do Estado de Direito: Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Tasso Jereissati, Aloysio Nunes (entre outros ex-ministros de FHC), Armínio Fraga, Edmar Bacha, Pérsio Arida e Pedro Malan, entre outros, além de Simone Tebet, que ficou em terceiro lugar no primeiro turno.
Em 2022, um documento chamado “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito” recolheu mais de 930 mil assinaturas. Assinado por banqueiros, empresários e acadêmicos, o documento integrou um movimento pré-eleitoral específico em reação aos ataques de Bolsonaro ao sistema de urnas eletrônicas.
Em 2026, não há nada parecido. O que se tem, pelo contrário, são manifestações públicas relacionadas à crise do Banco Master, à conduta dos ministros do STF e à reação da sociedade civil à tensão institucional — temas e alvos completamente diferentes dos da eleição passada.
A rua é o combustível de que Lula precisa. Mas as adesões de líderes do centro são o motor de partida. O carro pode até estar com o tanque cheio, mas, sem a faísca da adesão de figuras de peso, a virada não será ativada.
Em outras palavras, as ruas são condição necessária, mas não suficiente. E o que analistas precisam monitorar é a adesão ou não de lideranças e personalidades não alinhadas à campanha nos dez dias que faltam para a decisão.




