Depois de conquistar 43,8% dos votos nas eleições deste domingo, 6, no estado alemão de Saxônia-Anhalt, o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) passou a pressionar as demais legendas para que reconheçam aquilo que chama de “mandato para governar” e aceitem formar uma coalizão.
Beatrix von Storch, uma das principais dirigentes da AfD, resumiu o argumento: não seria possível simplesmente “não aceitar o voto do povo”. Ulrich Siegmund, candidato da AfD a primeiro-ministro estadual, afirma que procurará partidos e também parlamentares individualmente em busca da maioria que lhe falta.
A aritmética explica a ofensiva. A AfD conquistou 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual, três a menos que a maioria absoluta. A CDU, partido do chanceler Friedrich Merz e força dominante na Saxônia-Anhalt desde 2002, despencou para 17,2% e apenas 15 deputados. SPD, Verdes e Die Linke ficaram cada um com oito cadeiras; o BSW, legenda populista de esquerda que critica o isolamento da AfD, obteve cinco. A participação eleitoral chegou a 76,5%, recorde no estado.
Impacto nacional
O cenário coloca sob pressão o “cordão sanitário” mantido pelos partidos tradicionais contra qualquer cooperação com a AfD. Uma possibilidade para rompê-lo seria algum entendimento com o BSW. Outra, mais explosiva, seria a conquista de votos de parlamentares da própria CDU. O partido de Merz rejeita oficialmente qualquer colaboração. Mas, quanto maior fica a AfD, mais complexa se torna a sustentação do cordão sanitário: impedir o vencedor de governar exige coalizões cada vez mais heterogêneas e oferece ao partido o argumento de que todo o sistema se articula apenas para mantê-lo longe do poder.
A derrota da CDU, que comando o governo federal, é a mais grave em muitos anos e atinge diretamente a estratégia que o levou ao poder: recuperar eleitores conservadores e conter a AfD. Merz endureceu a política migratória desde que chegou à chancelaria, mas esse aceno à direita não interrompeu a ascensão da direita radical. Na Saxônia-Anhalt, o partido que pretendia conter recebeu mais de duas vezes a votação da CDU. Nacionalmente, a AfD também disputa a liderança nas pesquisas. O próprio Merz admitiu que o resultado terá repercussões muito além do estado e que não pode ser tratado como uma eleição regional qualquer.
Europa
A Alemanha não é apenas mais um país em que uma legenda populista-nacionalista cresce. Desde 1945, seu sistema político foi construído em torno da marginalização dos extremos e da formação de maiorias pelo centro. A aproximação da AfD do poder estadual, portanto, tem valor simbólico particular.
Na França, autoridades classificaram o resultado como um sinal “muito preocupante” e um “momento muito grave para a Europa”. Políticos europeus de direita enxergaram o oposto: Santiago Abascal, do Vox espanhol, falou em esperança para Alemanha e Europa; André Ventura, do Chega português, chamou o resultado de histórico.
França, Espanha e Itália se aproximam de ciclos eleitorais importantes. Analistas citados pelo jornal americano The New York Times veem no resultado alemão um possível roteiro eleitoral para partidos do mesmo espectro político da AfD: combinar insatisfação com custo de vida e desempenho econômico, imigração, identidade nacional e rejeição às elites políticas tradicionais.
História
Fundada em 2013 por economistas eurocéticos, a AfD deslocou-se progressivamente para a direita durante a crise migratória de 2015 e 2016. Xenofobia e islamofobia tornaram-se componentes centrais de seu discurso, ao lado de uma retórica antissistema dirigida contra políticos, imprensa e instituições. O serviço de inteligência doméstica alemão passou a investigar o partido por tendências extremistas em 2019 e ampliou gradualmente sua classificação.
Em maio de 2025, o órgão federal de proteção da Constituição, o BfV, classificou a AfD como uma organização de extrema direita comprovadamente extremista. A justificativa está na concepção de pertencimento nacional do partido, baseada em etnia e ancestralidade, incompatível, segundo o órgão, com a igualdade entre cidadãos assegurada pela ordem constitucional. A AfD recorreu, e a aplicação da nova classificação federal foi suspensa enquanto a contestação judicial é examinada.
Para explicar o perfil da AfD, uma análise da Der Spiegel retrocede à década de 1930 e à República de Weimar, suplantada pela ascensão do regime de Hitler ao poder. Na época, uma a direita nacionalista e antidemocrática existia paralelamente aos nazistas, reunia-se intelectualmente na chamada Revolução Conservadora e, politicamente, no DNVP, Partido Nacional do Povo Alemão. Autores ligados a esse universo, como Ernst Jünger e Carl Schmitt, continuam influentes em círculos da AfD.
No DNVP, uma ala inicialmente mais pragmática perdeu progressivamente espaço para os radicais. Sob Alfred Hugenberg, a legenda passou a trabalhar contra o parlamentarismo. Segundo a Der Spiegel, algo semelhante aconteceu na AfD. O alerta, segundo a revista alemã, é que partidos podem radicalizar-se por dentro enquanto continuam competindo eleitoralmente e utilizando instituições democráticas.
Democracia militante
A Alemanha é, constitucionalmente, uma “democracia militante”. Isso significa que dispõe de mecanismos criados para impedir que forças hostis à ordem democrática utilizem a democracia para destruí-la. Se confirmada judicialmente, a classificação da AfD como extremista pode ampliar vigilância sobre suas atividades e abrir caminho para medidas como a retirada de financiamento público.
A constituição alemã prevê até mesmo a dissolução de partidos considerados extremistas, o que depende de julgamento pelo Tribunal Constitucional Federal. No entanto, se proibir ou restringir uma legenda minoritária já é uma decisão excepcional, fazê-lo quando quando um partido obtém quase 44% dos votos num estado e disputa a liderança nacional produziria uma crise de outra escala.
Questões imediatas
As próximas semanas responderão às questões mais imediatas. A AfD conseguirá atrair o BSW ou deputados conservadores e formar o primeiro governo estadual de extrema direita da Alemanha do pós-guerra? A CDU conseguirá manter o cordão sanitário? A derrota ampliará a contestação interna à liderança nacional de Merz? Os próximos pleitos estaduais confirmarão que Saxônia-Anhalt é a vanguarda de uma mudança nacional?




