Depois de semanas de escalada nas tensões entre Brasil e Estados Unidos, Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump voltaram a diálogar. Os dois presidentes conversaram por telefone nesta sexta-feira, 21, e acertaram a retomada das negociações sobre as tarifas impostas pelo governo americano às exportações brasileiras.
A ligação, feita por iniciativa de Lula, durou uma hora e vinte minutos e ocorreu em “tom amistoso e cordial”, segundo o Palácio do Planalto. Trump concordou com a necessidade de preservar os vínculos comerciais entre os dois países e propôs que as equipes dos governos voltem a se reunir “o mais brevemente possível”.
O movimento abre uma nova etapa na crise comercial justamente quando Brasília começava a preparar uma possível resposta. Há poucos dias, o governo brasileiro abriu formalmente o procedimento previsto na Lei da Reciprocidade Econômica, mecanismo que permite a adoção de contramedidas contra os Estados Unidos. O processo ainda está em análise e pode ser interrompido caso as negociações avancem.
Lula, porém, não recuou das críticas às medidas americanas. Durante a conversa, classificou como “infundadas” as justificativas apresentadas por Washington para as novas tarifas, entre elas questões relacionadas a desmatamento, propriedade intelectual, corrupção, Pix, etanol e importações de produtos produzidos com trabalho forçado.
Segundo o Planalto, o presidente brasileiro argumentou que as tarifas prejudicam as duas economias e defendeu a negociação como a melhor saída para a disputa. Trump, de acordo com o relato oficial brasileiro, concordou com a necessidade de manter fortes as relações comerciais e propôs a retomada das conversas entre as equipes técnicas.
Uma disputa de bilhões
O Brasil foi atingido neste ano por duas novas medidas tarifárias dos Estados Unidos. A primeira acrescentou 25% às tarifas cobradas sobre parte dos produtos brasileiros. A segunda estabeleceu uma cobrança adicional de 12,5%, dentro de uma medida americana que alcançou dezenas de economias.
A sobretaxa de 25% atinge aproximadamente 15% do volume exportado pelo Brasil aos Estados Unidos em 2025, o equivalente a US$ 5,8 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços citados pelo governo. Madeira, móveis, máquinas e equipamentos, calçados, cerâmicas e açúcar estão entre os setores mais expostos.
A controvérsia ganhou uma dimensão que ultrapassa a política comercial. O governo brasileiro sustenta que parte das justificativas apresentadas por Washington tem caráter político.
A nota divulgada pelo Planalto não informou se Lula e Trump trataram das eleições brasileiras nem do impasse envolvendo Daniel Perez, indicado para representar os Estados Unidos em Brasília. A demora brasileira em aprovar sua indicação esteve no centro de uma nova disputa diplomática que culminou na revogação parcial do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Crime organizado
Lula reiterou o interesse brasileiro em trabalhar com os Estados Unidos contra o crime organizado, especialmente no combate ao fluxo financeiro das facções e à entrada clandestina de armas no país. Trump indicou que mobilizará autoridades de alto escalão de seu governo para dar sequência às conversas.
A aproximação não eliminou uma divergência importante. Lula voltou a rejeitar a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Segundo o presidente, embora esses grupos imponham “terror cotidiano” às populações mais vulneráveis, o Brasil dispõe de instrumentos jurídicos para combatê-los sem alterar sua classificação.
Na conversa, Lula apresentou a Trump medidas adotadas pelo Brasil nessa área. Segundo o relato divulgado pelo Planalto, citou a apreensão de cerca de R$ 17 bilhões no esforço de asfixia financeira das organizações criminosas, os planos de transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima, a Lei Antifacção e a proposta de ampliação do papel do governo federal na segurança pública. Também mencionou o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, instalado em Manaus.
Guerras e diplomacia
A agenda internacional completou a conversa. Lula e Trump trocaram avaliações sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio. Os dois concordaram sobre a necessidade de buscar uma solução negociada para a guerra na Ucrânia. Trump falou sobre as perspectivas envolvendo o Irã, enquanto Lula voltou a criticar a paralisia do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
O brasileiro propôs a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para discutir saídas diplomáticas para as crises internacionais — sugestão que, segundo o Planalto, já havia apresentado aos presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin.




