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CULTURA

E o capitalismo criou o mundo

Historiador Sven Beckert traça origens da economia moderna em obra monumental de 1.300 páginas

Há 166 dias • por Carlos Graieb
E o capitalismo criou o mundo
Os dos 53 mapas aquele é que considerado o primeiro atlas moderno, publicado em 1570 pelo holandês Abraham Ortelius
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Em Capitalism: A Global History, o historiador Sven Beckert, que ensina em Harvard, propõe uma das mais ambiciosas sínteses históricas já produzidas sobre o capitalismo. Longe de tratá-lo como um sistema econômico surgido “naturalmente” na Europa moderna, o autor reconstrói sua formação como um processo global que não obedece a leis fixas e se estende por quase nove séculos de história.

O ponto de partida do livro sinaliza sua ruptura com narrativas convencionais: Beckert inicia sua análise na cidade portuária de Áden, no atual Iêmen, por volta do século 12, para mostrar que o capitalismo não nasce em um único lugar nem obedece a uma trajetória linear. Ao contrário, emerge de redes mercantis dispersas, conectadas por portos, rotas marítimas, sistemas de crédito e formas experimentais de organização do trabalho, que precedem em muito o Estado-nação moderno. Beckert retrata o capitalismo como “a ordem econômica global por excelência” – e é curioso notar que numa de suas passagens sobre esse tema ele cita o historiador brasileiro Caio Prado Júnior.

Wang Zhi e Giovanni Agnelli

Outro eixo central da obra é a recusa explícita da ideia de que o capitalismo seja sinônimo de mercado livre. Beckert demonstra que, em todas as suas fases decisivas, o capitalismo dependeu da ação coercitiva dos Estados, do uso sistemático da violência e da mobilização do poder militar. A expansão colonial europeia, o tráfico atlântico de escravizados, a extração de prata em Potosí ou a economia açucareira de Barbados aparecem como laboratórios do capitalismo.

Da mesma forma, para Beckert, nunca houve uma ligação intrínseca entre o capitalismo e um regime político determinado. Ele convive com democráticos, autoritários ou coloniais.

A força da narrativa reside na maneira como Beckert entrelaça grandes estruturas históricas com estudos de caso concretos, descrevendo cidades, famílias empresariais e trajetórias individuais. Esse recurso confere densidade humana ao relato e evita que o livro se torne uma história puramente abstrata da economia mundial. São personagens como o pirata chinês Wang Zhi, do século 16; o mercador turco Mohammad Chelebi, do século 17; o industrialista alemão Hermann Röchling, do século 19; ou o fundador da Fiat, Giovanni Agnelli.

Tecnologia e inovação

Como seria inevitável num livro dessa amplitude, aspectos em que ele fica aquém de sua ambição foram apontados. As análises da revista The New Yorker e da Bloomberg chamaram atenção para o pouco destaque que Beckert dá aos temas da tecnologia e da inovação. O autor também condena de maneira inequívoca facetas do capitalismo, como sua “natureza predatória em relação à natureza” – o que talvez incomode certo tipo de leitor maniqueísta. O livro, no entanto, não é um conto moral, em que o capitalismo possa desempenhar o papel de força maligna ou salvadora.

No capítulo de introdução, Beckert convida o leitor a seguir seu estudo “com um sentimento de admiração, surpresa e espanto – não porque [o capitalismo] seja ‘bom’ ou ‘mau’, mas por seu poder de moldar o mundo e porque compreendê-lo é crucial para navegarmos nosso futuro compartilhado.” Vista dessa maneira, a obra está destinada a se tornar referência obrigatória para historiadores, cientistas sociais e todos aqueles interessados em enxergar com maior clareza a realidade ao seu redor.

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