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CULTURA

O fim de uma espera de mil anos

Pela primeira vez desde o século 11, Tapeçaria de Bayeux deixa a França para ser exibida na Inglaterra

Há 43 dias • por Fernanda Zaffari
O fim de uma espera de mil anos
Detalhe da Tapeçaria (na verdade um bordado) que trata da invasão da Inglaterra pelos normandos. Foto: Domínio Público/Wikimedia Commons
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Pela primeira vez em quase mil anos, a Tapeçaria de Bayeux será exibida em Londres. A obra é o principal relato da invasão normanda e dos eventos que levaram a ela — um período que marcou profundamente a história da Inglaterra. A exposição, com abertura marcada para 10 de setembro no British Museum, é considerada a mais importante do ano no calendário de arte do país, a mais importante da história do museu e o principal aceno de paz desde o Brexit entre os dois vizinhos e rivais históricos, França e Inglaterra.

Bordado

Primeiro, é bom explicar que a Tapeçaria de Bayeux, apesar do nome consagrado, não é uma tapeçaria, mas sim um bordado feito em fios de lã sobre linho. Mas não é qualquer bordado. As dimensões e o detalhamento das imagens estão entre os aspectos fascinantes da peça. Os 70 metros de comprimento são construídos como uma história em quadrinhos em 58 cenas, com 627 personagens, 737 animais; destes, 202 são cavalos, mas apenas 6 mulheres. Definitivamente, um relato fiel da realidade medieval.

A peça, segundo afirma a maioria dos especialistas, teria sido encomendada pelo bispo de Bayeux e feita no sul da Inglaterra, em Canterbury ou arredores, provavelmente por bordadeiras anglo-saxãs dedicadas aos minuciosos bordados entre 1072 e 1077. A Bayeux sempre viveu do outro lado do Canal da Mancha, em solo francês, e desde 1983 estava exposta no museu de mesmo nome, na Normandia. Atualmente, o museu passa por reformas e, por isso, somente agora, apesar de séculos de tentativas dos ingleses, o empréstimo se tornou realidade.

Promessa cumprida

Foi o presidente Emmanuel Macron que prometeu à então primeira-ministra Theresa May o empréstimo — isso lá no começo das negociações do Brexit. Em 2018, foi considerado um gesto histórico na tentativa de reconstruir as relações dos fujões britânicos da comunidade europeia. Cinco primeiros-ministros depois, finalmente o momento tão aguardado se torna realidade.

A Tapeçaria de Bayeux é considerada o relato mais detalhado e importante que ilustra como era parte da Europa medieval no século XI. Não é exagero, como já escrevi aqui, comparar a obra a uma história em quadrinhos. Os bordados são cenas que mostram com impressionante detalhamento como as pessoas viviam, como se vestiam, as armas que utilizavam, como construíam e como eram as embarcações, o que comiam e, principalmente, como guerreavam. Não espere imagens moderadas: assim como no campo de batalha, a violência é explícita, com soldados sendo mortos por lanças e flechas, corpos mutilados, animais mortos, e até membros decepados.

Invasão normanda

O momento histórico que a Bayeux retrata é estudado por todas as crianças nas escolas britânicas — ponto de sabatina certo no currículo nacional. Conta a disputa pelo domínio da Inglaterra, a partir do sucessor do rei Eduardo, o Confessor. Ele não tinha herdeiros e dois homens sonhavam com o trono: Haroldo Godwinson, um poderoso nobre inglês, e Guilherme, duque da Normandia, na atual França.

Com a morte de Eduardo, Haroldo é coroado. O problema é que Guilherme já teria feito um acordo com Haroldo para que ele assumisse o trono (a tapeçaria mostra a cena). Furioso com a traição, Guilherme desembarca no sul da Inglaterra para tomar o que tinha como seu e, em 1066, luta a sanguinária Batalha de Hastings, quando Haroldo é morto — na parte final da Tapeçaria, aparece a inscrição em latim “Hic Harold rex interfectus est”, que significa “Aqui o rei Harold foi morto”. Uma trama digna de um novelão que envolve poder, intriga e traição e cuja conclusão é a vitória de Guilherme, o Conquistador, abrindo caminho para o domínio normando da Inglaterra.

Sucesso imediato

O primeiro lote de ingressos colocados à venda pelo British Museum se esgotou no primeiro dia, com um público paciente que esperou até 9 horas em filas online para desembolsar £33 libras (R$ 230 por ingresso). Os próximos lotes serão vendidos em outubro e depois só em 2027.

Tudo nesta exposição é grandioso. A começar pela operação para trazer a obra da Normandia a Londres, um trajeto de quase 500 quilômetros. O seguro para a viagem de um material tão delicado é de £800 milhões — cerca de R$ 5,6 bilhões. A operação, meticulosamente planejada, foi realizada durante a madrugada, o que incluiu a Bayeux pegar o Eurotúnel, cruzando de trem sob o Canal da Mancha. Finalmente, chegou a Londres às 3 da manhã, sob forte esquema de segurança e, mesmo ainda coberta por uma caixa especial, foi manchete em todos os jornais e telejornais do país.

Quem tiver a chance de estar em Londres e conseguir o feito de ter um ingresso em mãos, sem dúvida, é a chance de viver um momento único — afinal, a Tapeçaria de Bayeux faz, quase mil anos depois de ser feita, história novamente.

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