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CULTURA

O terroir de cada um de nós

Como os vinhos, carregamos dentro notas de cada fase que vivemos, cada encontro que nos tocou, de cada experiência marcante pela qual passamos

Há 44 dias • por Luciana Pianaro
O terroir de cada um de nós
Ilustração: ChatGPT
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5:08

Sempre me fascinou a ideia de que um vinho não é apenas uma bebida, mas uma viagem sensorial – o reflexo do solo onde a uva cresceu, do clima que as vinhas enfrentaram e das mãos que a cultivaram. Já vi diversos filmes e séries sobre vinhos, e recentemente esse encanto ganhou ainda mais profundidade ao assistir à série Drops of God (Gotas Divinas, disponível na Apple+). Ela me fez expandir minha noção de terroir – e não apenas no contexto dos vinhos, mas no da vida.

Drops of God é baseada no mangá japonês de mesmo nome e acompanha Camille, uma jovem francesa que cresceu distante do pai, um renomado crítico de vinhos. Após sua morte, ela descobre que precisa competir contra um brilhante enólogo para herdar a preciosa coleção de vinhos do pai. O problema? Ela tem problemas com os vinhos.

Ao longo da série, Camille vai se redescobrindo através do olfato e do paladar. Ela tem uma incrível capacidade de identificar aromas, e (reaprende) a sentir cada nota de um vinho (desculpe, um pequenino spoiler) e a conectar essas sensações às suas próprias memórias e emoções.

E foi exatamente essa sensibilidade que despertou uma reflexão: e se nossa vida também fosse uma descoberta pelo nosso próprio terroir?

Descobertas pessoais

No mundo dos vinhos, terroir é um conceito francês que vai muito além do solo onde uma uva é plantada. Ele engloba o clima, a altitude, a umidade, a inclinação do terreno e até a forma como o produtor cuida das videiras. Tudo isso influencia diretamente no sabor e nas características do vinho. É como se cada garrafa carregasse a identidade única do lugar onde foi produzida.

Mas será que nós também não temos um terroir próprio, formado pelas nossas origens, experiências, memórias, sentimentos e relações?

Pois bem, nosso terroir é construído pelos lugares onde crescemos, pelas pessoas que nos marcaram, pelas experiências que moldaram nossa essência. Somos influenciados pelas estações da vida, pelo tempo que nos transforma, pelos desafios que nos amadurecem. Como os vinhos, carregamos dentro de nós notas de cada fase que vivemos, de cada encontro que nos tocou, de cada experiência marcante e difícil pela qual passamos.

E assim como um vinho precisa de tempo para desenvolver seu aroma e sabor, nós também precisamos de tempo para absorver, amadurecer e compreender as camadas da nossa história.

Estar presente e sentir

Uma das lições mais bonitas que Drops of God me trouxe foi a importância de estar presente para realmente sentir. A vida nos empurra para a pressa, e nessa correria, perdemos a conexão com os detalhes.

Quantas vezes você sentiu, de fato, o aroma dos temperos que usa na cozinha? Ou fechou os olhos para perceber a textura de um alimento na boca? Há quanto tempo você parou para sentir o cheiro de um livro novo, do café fresco, da terra molhada pela chuva?

Quando resgatamos essa sensibilidade, tudo ganha mais vida. Perceber as nuances das experiências diárias nos torna mais conectados com o presente e mais atentos ao que realmente nos faz bem.

Se há algo que os grandes vinhos e as grandes histórias nos ensinam, é que tudo exige tempo. Algumas experiências precisam ser maturadas, algumas fases pedem um tempo de descanso e outras exigem que nos joguemos de cabeça, sem medo de experimentar.

Nosso terroir pode ser enriquecido. Podemos nos abrir a novas vivências, a novos sabores, a novos desafios. Cada um de nós tem um solo único, mas sempre podemos fortalecer nossa terra com aprendizado, com boas trocas e com a eterna curiosidade.

Degustar a jornada

E talvez o mais importante: aprender a degustar a nossa própria história com paciência e encantamento.

Então, te convido a olhar para sua trajetória com essa nova perspectiva. Quais são os elementos que formam seu terroir? O que você pode fazer para enriquecer essa experiência?

Uma dica, comece fazendo essa brincadeira com alguém próximo: tente descobrir as origens dos seus pais (eu descobri que tenho ascendência veneziana e etrusca, de tataravós que emigraram para o sul do Brasil), os cheiros que marcaram sua infância – eles ainda estão aí, guardados na sua memória, tenho certeza e siga entendendo cada fase e lugar pelos quais passou, para chegar onde está hoje.

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