Em 2014, a seleção brasileira foi esmigalhada pela Alemanha no famoso jogo do 7 a 1. Pouco mais de dois meses depois, no entanto, Dilma Rousseff foi reeleita. Em 2002, de forma inesperada, o Brasil ganhou a Copa, e o presidente Fernando Henrique recebeu os atletas em uma grande festa popular em Brasília, com direito a jogador dando cambalhota na rampa do Planalto. Mesmo assim, o tucano não conseguiu eleger José Serra como seu sucessor e a oposição venceu a disputa.
Essa introdução ilustra a baixa — ou nenhuma — relação entre desempenho esportivo e desempenho eleitoral. Mas isso não significa que o tema deva ficar fora do radar, uma vez que muita coisa mudou no comportamento político do brasileiro desde que o lateral Cafu ergueu a taça pela última vez.
Patriotismo de esquerda
Sabe-se que a esquerda tem como objetivo estratégico recuperar símbolos nacionais, como a camisa verde e amarela, e que o patriotismo está no centro da comunicação do governo desde que Donald Trump passou a deixar claro que considera as Américas uma zona de influência dos EUA e começou a tomar medidas para exercer esse poder autoatribuído.
Lula, conhecido por adorar metáforas relacionadas ao futebol, mostrou-se cuidadoso com a Copa. Desde o início do campeonato, fez apenas três postagens sobre o tema nas redes: uma desejando boa sorte ao treinador Ancelotti e dando conselhos de gestão, e duas comemorando resultados. Até agora, ele ignorou a derrota.
O cuidado do presidente se revela no fato de não haver uma única foto dele com a camisa oficial do Brasil, em uma tentativa clara de não se associar à imagem que o ex-presidente Jair Bolsonaro construiu ao vestir o uniforme.
O resgate de Neymar
Do outro lado, Flávio Bolsonaro fez uma live pré-jogo com o irmão, Eduardo Bolsonaro, deu palpite sobre resultados, disse como escalaria o time no segundo tempo e, após o resultado, relacionou os fracassos desde 2002 aos governos do PT. Encerrou dizendo que, neste ano, “perdemos a Copa, mas vamos ganhar o Brasil”.
Dentro do conceito de “colapso de contextos”, formulado pelo consultor de crise Carlos Parente, segundo o qual se lê política em todas as editorias, o destaque ficou por conta da presença de Neymar na seleção. Apoiador aberto de Jair Bolsonaro, ele teve sua convocação criticada por Lula e apareceu em vídeo de IA produzido por Flávio como se tivesse sido resgatado pelo senador para ter papel relevante na Copa.
Na noite de ontem (5), o deputado Nikolas Ferreira sugeriu que, se Neymar estivesse em campo desde o início, o Brasil não teria perdido, e reconheceu que a postagem era apenas para mandar “Lula se ferrar”.
De volta à realidade
Ao final, pode-se dizer que Lula não conseguiu “tomar de volta” o símbolo da camisa da seleção e da bandeira, mas talvez tenha visto a Copa diluir seu significado. Ao incentivar o uso das cores pelos ministros e por militantes de centro-esquerda, o governo retirou da oposição o “monopólio do patriotismo estético”.
Do outro lado, a exploração política da derrota pela oposição tampouco demonstra potencial, porque Lula tomou o cuidado de não mergulhar nessa agenda.
Diante disso, é difícil afirmar que se possa esperar um saldo político relevante. A não ser pelo fato de a eliminação encurtar um evento que concorria com o calendário eleitoral, os escândalos e os acontecimentos econômicos. Com a queda precoce, a disputa política deixa de ter concorrentes na busca pela atenção do brasileiro.




