Poucos governos brasileiros despertam tantas interpretações conflitantes quanto os 963 dias em que Michel Temer ocupou a Presidência da República. Para alguns, foi um período de estabilização institucional e de recuperação da economia após uma das maiores crises políticas da história recente. Para outros, representou o desdobramento de um processo iniciado com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e que acabaria levando o país a um ciclo de crescente radicalização política. É justamente nesse terreno complexo que Bruno Barreto constrói 963 Dias, documentário que estreia nos cinemas brasileiros no segundo semestre de 2026.
A primeira exibição ocorreu nesta sexta-feira, 26, em São Paulo, em uma sessão especial para convidados que reuniu centenas de pessoas. Entre os presentes estavam empresários, jornalistas, autoridades, lideranças políticas e diversos personagens que participam do próprio documentário. A atmosfera da pré-estreia deixava evidente que se trata de uma obra destinada a provocar debate sobre um dos períodos mais intensos da história política brasileira recente.
Ritmo, emoção e clareza
Bruno Barreto utiliza o governo de Temer como ponto de partida para compreender a transformação do ambiente político nacional. Busca explicar como o país saiu de um período de negociações institucionais para um cenário de polarização que ainda domina o debate público.
O diretor demonstra, mais uma vez, por que ocupa um lugar entre os maiores cineastas brasileiros. Conduz uma narrativa complexa sem perder ritmo, emoção ou clareza. A fotografia é elegante, a utilização das imagens de arquivo impressiona pela qualidade e pela precisão histórica, enquanto a trilha sonora original, composta pelo premiado argentino Federico Jusid, envolve o espectador sem jamais sobrepor-se à narrativa.
A montagem — assinada por Leticia Giffoni, Felipe Lacerda e André Finotti — merece destaque especial. O desafio de organizar dezenas de entrevistas, documentos, imagens históricas e acontecimentos políticos de enorme complexidade resulta em um filme fluido, didático e envolvente. Em nenhum momento o documentário se transforma numa simples sucessão de depoimentos. Há construção dramática, ritmo narrativo e uma evidente preocupação em tornar acessível um período complexo da vida nacional.
Ao longo de uma hora e quarenta e cinco minutos, Barreto recompõe a cronologia desde a primeira eleição de Dilma Rousseff, passando pela deterioração do ambiente político, a crise econômica, o impeachment, a posse de Michel Temer e as principais reformas implementadas por seu governo. A partir daí, amplia a narrativa para mostrar como aqueles acontecimentos influenciaram os anos seguintes, permitindo compreender o ambiente político que desembocaria na eleição de Jair Bolsonaro, nos conflitos institucionais posteriores e, finalmente, nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.
Essa opção narrativa talvez seja uma das maiores virtudes do documentário. O governo Temer funciona como eixo central, mas a história não termina quando seus 963 dias chegam ao fim. A obra procura estabelecer conexões entre aquele período e o Brasil contemporâneo, oferecendo ao espectador elementos para compreender a origem de muitas das tensões políticas que permanecem presentes até hoje.
Diversidade de entrevistados
A riqueza do filme está também na diversidade dos entrevistados.
São aproximadamente quarenta personagens que participaram diretamente daqueles acontecimentos ou os acompanharam de posições estratégicas. Estão presentes Henrique Meirelles, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Rodrigo Maia, Rodrigo Pacheco, Pedro Parente, Carlos Marun, Moreira Franco, Tarcísio de Freitas, Marcos Lisboa, Zeina Latif, Nelson Jobim, Renato Meirelles, Fernando Gabeira e o cientista político norte-americano Mark Lilla, um dos principais estudiosos contemporâneos das democracias liberais.
A imprensa ocupa papel igualmente relevante. O documentário reúne jornalistas que estiveram na linha de frente da cobertura daqueles anos, como Sérgio Dávila, Consuelo Dieguez, Raquel Landim, Thais Bilenky, Eduardo Oinegue, Ascânio Seleme e Antonio Carlos Pereira, permitindo ao espectador compreender como redações, veículos de comunicação e profissionais enfrentaram um dos períodos mais desafiadores da cobertura política brasileira.
Entre tantos depoimentos, um tem carga emocional.
Luciana Temer, filha mais velha do ex-presidente, oferece talvez os momentos mais sensíveis de toda a produção. Advogada, professora de Direito Constitucional, presidente do Instituto Liberta e reconhecida por construir uma trajetória pública própria — frequentemente marcada por posições independentes em relação às do pai —, Luciana apresenta um Michel Temer distante do personagem político conhecido do grande público.
Seus relatos tratam da figura humana, do pai, do marido, da serenidade diante das crises e da personalidade de quem ocupou a Presidência da República em um dos momentos mais delicados da democracia brasileira. São depoimentos carregados de emoção, delicadeza e sinceridade, que acrescentam profundidade ao documentário e ajudam a compreender aspectos pessoais raramente explorados na trajetória pública do ex-presidente.
O papel do STF
Outro núcleo importante da narrativa envolve o Supremo Tribunal Federal.
O ministro Alexandre de Moraes aparece diversas vezes ao longo do filme e se torna uma das vozes mais presentes do documentário. Em determinado momento, faz críticas à Operação Lava Jato, afirmando que integrantes da força-tarefa utilizaram instrumentos jurídicos e institucionais para construir protagonismo político.
A observação é relevante dentro da reconstrução histórica proposta por Bruno Barreto. Ao mesmo tempo, é inevitável que desperte interpretações no contexto atual. Moraes tem sido alvo de críticas recorrentes, no Brasil e no exterior, pela condução de inquéritos como o das fake news e por decisões consideradas expansivas por seus críticos. Essa circunstância faz com que parte do público associe sua fala ao conhecido ditado “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Independentemente da posição de cada espectador, trata-se de um dos momentos do documentário que certamente alimentará discussões após sua estreia.
O mérito do diretor está justamente em permitir que o espectador acompanhe interpretações distintas sobre um mesmo conjunto de acontecimentos. O filme não elimina divergências, apresenta diferentes leituras sobre um período ainda muito vivo na memória nacional.
Sob esse aspecto, 963 Dias ultrapassa a condição de documentário biográfico. É um estudo sobre o funcionamento da política brasileira em tempos de crise, sobre o papel das instituições, da imprensa, do Judiciário, da economia e das lideranças políticas na construção do Brasil contemporâneo.
Série e biografia
O documentário integra um projeto mais amplo de preservação da memória daquele período político. Está em produção uma série documental dirigida por Elsinho Mouco, dividida em capítulos e destinada às plataformas de streaming. A série deverá aprofundar episódios, bastidores e personagens apresentados no filme, trazendo novos depoimentos e ampliando a compreensão sobre o governo Temer e seus desdobramentos. A data de lançamento ainda não foi anunciada.
Outro projeto em desenvolvimento é a biografia de Michel Temer, escrita pelo jornalista Eduardo Oinegue. Sem previsão oficial de publicação, a expectativa é de que o livro seja lançado em 2027, oferecendo um retrato ainda mais amplo da trajetória pessoal e política do ex-presidente.
Independentemente da avaliação que cada brasileiro faça de seu governo, Temer tornou-se um personagem incontornável para compreender a história recente do país. Sua passagem pelo Palácio do Planalto representou uma travessia institucional em um dos momentos mais delicados da República e continua influenciando o debate político nacional.
963 Dias não pretende encerrar essa discussão. Ao contrário, abre novas perguntas, estimula reflexão e entrega ao público um documentário de altíssimo nível técnico, histórico e cinematográfico.
@felipevieirajornalista




