Os novos resultados do Pisa, divulgados nesta terça-feira, 8, mostram que o Brasil atravessou a última década praticamente sem avançar na aprendizagem. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, realizado pela OCDE, mede a capacidade de jovens de 15 anos de aplicar conhecimentos de matemática, leitura e ciências a problemas da vida real. Em 2025, os brasileiros obtiveram 377 pontos em matemática, 409 em ciências e 408 em leitura. Segundo a própria OCDE, nas três disciplinas os resultados permanecem próximos dos registrados em todas as avaliações realizadas no país desde 2015.
Mais importante do que a posição brasileira nos rankings é o que as notas dizem sobre aquilo que os estudantes efetivamente conseguem fazer. Em matemática, apenas 28% atingiram ao menos o nível 2 de proficiência, patamar básico da OCDE, contra 65% da média dos países que participam do exame. Em ciências, foram 48%, ante 74%; em leitura, 49%, contra 69%. Isso significa, dito de outra maneira, que 72% dos brasileiros não dominam as competências básicas esperadas em matemática e que mais da metade fica abaixo do mínimo em leitura e ciências.
A edição de 2025 reuniu 91 países e economias e mais de 760 mil estudantes; nas classificações divulgadas com resultados de 89 participantes, o Brasil aparece em 71º lugar em matemática, 67º em ciências e 52º em leitura. O quadro é ainda mais preocupante quando as três disciplinas são consideradas conjuntamente: 43,8% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível mínimo nas três áreas, mais que o dobro da proporção registrada na média da OCDE.
Problema social e econômico
Em um ano de eleição presidencial, os números deveriam colocar a educação básica no centro das cobranças aos candidatos. Antes de qualquer consideração econômica, trata-se de um grave problema social. Crianças e adolescentes que deixam a escola sem compreender adequadamente textos, raciocinar matematicamente ou interpretar evidências científicas têm seus horizontes profissionais e pessoais estreitados. O Pisa também mostra a força da desigualdade: em ciências, a distância entre os 25% dos estudantes brasileiros mais ricos e os 25% mais pobres chega a 96 pontos, acima dos 85 pontos registrados na média da OCDE.
Mas o problema não termina na política educacional. A baixa aprendizagem produz uma conta econômica. Uma força de trabalho com deficiências de formação dificulta ganhos de produtividade, encarece a busca por profissionais e reduz a capacidade das empresas de incorporar novas tecnologias. Em uma economia que pretende ampliar investimentos em infraestrutura, digitalização e inteligência artificial, capital financeiro e máquinas não bastam: é necessário capital humano capaz de operá-los.
Os sinais dessa restrição já aparecem no mercado de trabalho. A Pesquisa Global de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, apontou que 80% dos empregadores brasileiros enfrentam dificuldades para preencher vagas, acima da média mundial de 72%.
Vagas não preenchidas
O problema está longe de se restringir às empresas de tecnologia. A dificuldade de contratação chega a 85% nos serviços científicos e técnicos e a 83% no setor de informação. Comércio, logística, hospitalidade, manufatura, serviços públicos e recursos naturais também registram índices elevados. Entre as competências técnicas mais difíceis de encontrar estão desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial, alfabetização em IA, tecnologia da informação e análise de dados. Do lado comportamental, empresas procuram comunicação, colaboração, adaptabilidade, pensamento crítico e capacidade de solucionar problemas.
Diante da escassez, as próprias companhias tentam compensar parte da deficiência. No Brasil, 44% das empresas pesquisadas pelo ManpowerGroup dizem investir em qualificação ou requalificação de funcionários. Outras ampliam a busca por talentos, oferecem maior flexibilidade ou recorrem a salários mais competitivos.
O desafio da IA
O Pisa 2025 acrescenta, por fim, uma nova preocupação a esse quadro. A inteligência artificial já faz parte da rotina escolar: 48% dos estudantes brasileiros dizem usar chatbots de IA pelo menos uma vez por semana para aprender, percentual ligeiramente superior à média da OCDE. Quatro em cada dez recorrem a essas ferramentas para pesquisas preliminares, 31% para resumir textos e 27% para preparar rascunhos de trabalhos.
A tecnologia pode ser instrumento de aprendizagem, mas aumenta a importância de competências nas quais muitos estudantes apresentam dificuldades: interpretar informações, confrontar fontes e exercer pensamento crítico. O relatório chama atenção para a deterioração internacional de habilidades ligadas à avaliação de informações e à reflexão crítica em um ambiente de disseminação da IA.




