Buscar
CULTURA

A imperdível Fundação Cartier

Pioneira entre marcas de luxo a criar uma coleção de arte, instituição tem uma espetacular nova sede

Há 166 dias • por Carlos Graieb
A imperdível Fundação Cartier
Emoldurada por um dos “Arcos de Nuvem” do japonês Junya Ishigami, a instalação “Natureza Espiritual da Realidade”, do brasileiro Luis Zerbini, reúne plantas e materiais naturais e artificiais
Ouça este conteúdo A imperdível Fundação Cartier
4:55

Muitos indivíduos e instituições sustentaram as artes ao longo dos séculos – dos papas aos banqueiros, das cortes reais aos museus públicos. Em nossos dias, não existe mecenato comparável ao exercido por entidades ligadas às principais marcas de luxo da Europa. Surgida em 1984, a Fundação Cartier de arte contemporânea foi a pioneira. Fundação Hermès, Fundação Louis Vuitton, Pinault Collection e Fundação Prada seguiram no seu encalço e hoje são detentoras de algumas das mais interessantes coleções de artes visuais da Europa.

Mas isso não significa que a Fundação Cartier tenha perdido o protagonismo. Ela acaba de inaugurar sua nova sede em Paris – e se você tem viagem marcada para a capital francesa, essa é uma parada indispensável.

Jean Nouvel

O celebrado arquiteto francês Jean Nouvel projetou tanto o novo prédio da fundação quanto o anterior. As abordagens, no entanto, são bem diferentes. A construção ocupada até o final de 2025 tem à frente três grandes estruturas de metal e vidro, paralelas, mas não alinhadas, e representa uma intervenção icônica na paisagem parisiense.

Desta vez, Nouvel manteve intacta a fachada do edifício, que fica diante do Museu do Louvre e foi construído em estilo neoclássico, na década de 1850. O interior, no entanto, foi radicalmente reconfigurado. O propósito era criar um “suporte para invenções”: 6.500 metros quadrados que oferecem incontáveis possibilidades cênicas para o encontro do visitante com a arte.

Cinco imensas plataformas móveis de aço reciclado permitem que isso ocorra. Cada uma delas se posiciona em múltiplas configurações, elevando-se do subsolo até 11 metros de altura. Piso, paredes e teto estarão em movimento constante e cada visita poderá trazer uma experiência distinta.

Acervo

Conhecida pelas excepcionais mostras individuais e temáticas, muitas vezes com criações comissionadas especialmente para a ocasião, a fundação optou por explorar seu acervo na abertura da nova fase. Ela hoje dispõe de aproximadamente 4.500 obras, de mais de 500 artistas, oriundos de cerca de 50 países.

Para a retrospectiva, foram selecionadas 600 peças, que refletem a “mistura de rigor e ecletismo” buscada pela coleção. Exposition Générale se organiza em quatro eixos. “Máquinas de Arquitetura” e “Ser Natureza” contrapõem de diversas maneiras espaços construídos e naturais. “Fazer Coisas” apresenta interações entre arte, design e artesanato. Finalmente, “Um Mundo Real” inventa ambientes recorrendo à ciência, à tecnologia e à ficção.

O “Gazebo” do italiano Andrea Barzi oferece experiências distintas para quem o vê de fora ou de dentro

Presença brasileira

Um dado relevante sobre o acervo da Fundação Cartier é a robusta presença de artistas brasileiros. Hervé Chandès, diretor da instituição entre 1994 e 2024, tinha um confessado fascínio pelo país. Além disso, o grande colecionador brasileiro Gilberto Chateaubriand foi conselheiro da fundação e fez a ela diversas doações.

Na mostra atual, Bruno Novelli e Santidio Pereira aparecem como figuras proeminentes de uma nova geração. As obras de Véio, com suas esculturas em madeira morta, e as cerâmicas de Izabel Mendes Da Cunha, remetem à arte popular do Nordeste brasileiro. A exposição tem ainda a impactante pintura “Makunaimî Cria o Espelho Universal”, de Jaider Esbell, e obras significativas de Solange Pessoa, Adriana Varejão e Luiz Zerbini.

“Colecionadores corporativos”

A importância assumida pelas fundações ligadas a marcas de luxo no mercado de artes visuais despertou o mau humor de certos críticos – como talvez fosse inevitável. Eles dizem que esses “colecionadores corporativos” impedem o julgamento dos artistas por seus próprios méritos, pois adquirem e promovem aqueles que de alguma maneira satisfazem interesses de suas marcas e empresas. Trata-se de uma objeção banal.

Desde que Caio Mecenas emprestou seu nome ao “mecenato”, na Roma Antiga, interesses particulares influíram sobre a criação artística. Isso não diminui a beleza dos poemas de Horácio ou das pinturas do Renascimento. No caso da Fundação Cartier, nem mesmo o mais rabugento dos críticos será capaz de negar a consistência do trabalho realizado ao longo de quatro décadas, que trouxe à tona jovens talentos, fez circular ideias sobre arte e enriqueceu a bagagem de milhares de visitantes. A nova sede em Paris só aumenta esse legado.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER