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POLíTICA

O mundo em regressão democrática

Relatório anual do V-Dem, maior observatório global da democracia, mostra que centro de gravidade da política se desloca para o autoritarismo

Há 216 dias • por Carlos Graieb
O mundo em regressão democrática
Jacob Chansley, o Xamã do QAnon, famoso por participar da invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021: regressão democrática
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Publicado nesta semana, o Democracy Report 2026, produzido pelo Varieties of Democracy Institute (V-Dem) – uma das mais abrangentes iniciativas globais de análise da democracia, baseada em milhões de dados e na colaboração de milhares de especialistas – não deixa espaço para ambiguidades: a democracia entrou em um ciclo de retração, possivelmente duradouro. Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, observou-se regressão no nível de democracia ao redor do mundo. O cenário, hoje, é comparável ao de 1978.

Democracia e autoritarismo

O V-Dem separa os regimes políticos em quatro categorias. No topo está a democracia liberal, que combina eleições livres e competitivas com fortes mecanismos de freios e contrapesos e proteção das liberdades civis. Em seguida vem a democracia eleitoral, na qual há eleições regulares e pluralismo político, mas com déficits relevantes em áreas como independência judicial, controle do Executivo ou garantias de direitos.

No campo autoritário, o V-Dem diferencia a autocracia eleitoral, onde existem eleições multipartidárias, mas sem condições, e a autocracia fechada, em que sequer há eleições competitivas e os direitos políticos básicos são suprimidos. Entre essas categorias, o instituto ainda reconhece “zonas cinzentas”, nas quais os países se equilibram entre democracia e autocracia.

Onda de autocratização

A ideia de “ondas de democratização”, consagrada pelo cientista político americano Samuel P. Huntington, apontava para uma expansão contínua das instituições liberais desde os anos 1970. O que se observa agora, segundo o V-Dem, é o movimento inverso: uma “onda de autocratização”, marcada pelo aumento de regimes autoritários e pela deterioração interna de democracias estabelecidas.

O dado mais eloquente é que 74% da população mundial vive hoje sob regimes autocráticos. Além disso, enquanto 44 países estão em processo de deterioração democrática, apenas 18 registram avanços, que tendem a ser frágeis. A democracia se tornou minoritária.

Gigantes em queda

O retrocesso tem um traço decisivo: atinge países grandes, populosos e economicamente centrais. O relatório aponta que o centro de gravidade da política global se desloca em direção ao autoritarismo, com impactos diretos sobre normas internacionais e instituições multilaterais.

Os Estados Unidos ocupam posição emblemática no relatório. O país deixou de ser classificado como democracia liberal pela primeira vez em mais de meio século. Aparece agora como democracia eleitoral – a mesma categoria em que se encontra o Brasil. Sendo os EUA a principal potência global, observa-se um efeito cascata: o enfraquecimento do principal polo democrático compromete a difusão internacional de valores liberais.

Erosão em vez de explosão

A dinâmica contemporânea da autocratização possui outra característica distintiva. Ela é incremental, em vez de abrupta. Governos eleitos passam a restringir liberdades civis, pressionar a mídia e enfraquecer controles institucionais. A liberdade de expressão surge como indicador-chave desse processo, deteriorando-se simultaneamente em dezenas de países.

Uma comparação útil pode ser feita com o índice de democracia da Economist Intelligence Unit, ligado à revista The Economist. Apesar de diferenças metodológicas, os diagnósticos convergem: há declínio global desde meados dos anos 2000, com redução das democracias plenas e expansão de regimes híbridos. A diferença está no tom. O V-Dem enfatiza uma reversão estrutural, enquanto a Economist descreve uma erosão. Ambos concordam que a democracia liberal deixou de ser dominante.

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