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POLíTICA

Nenhum caminho será fácil com PCC e CV terroristas

Se os EUA oficializarem a disposição de classificar as duas organizações como terroristas, o governo brasileiro se verá diante de um dilema

Há 211 dias • por Leonardo Barreto
Nenhum caminho será fácil com PCC e CV terroristas
Trump e Lula se encontram em outubro de 2025, na Malásia: mui amigos. Foto: Ricardo Stuckert/Presidência
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5:12

Nesta segunda, 16, Brasil e Bolívia assinaram um acordo de ação conjunta contra o crime organizado. O pacto abrange tráfico de pessoas, contrabando de migrantes, narcotráfico, lavagem de dinheiro, mineração ilegal, tráfico de armas, crimes cibernéticos, crimes ambientais e roubo de veículos. Houve um momento de desconforto no encontro entre o presidente boliviano Rodrigo Paz e o brasileiro Lula, quando o primeiro afirmou que facções criminosas como PCC e CV causam terrorismo. Neste momento, o Brasil tenta evitar que os Estados Unidos enquadrem as facções como terroristas, o que abriria espaço para intervenções americanas no sistema financeiro e até no território nacional. A fala de Paz sugere que mesmo na vizinhança alguns países acreditam que não seria, de todo, uma má ideia.

Em dezembro de 2025, o governo dos Estados Unidos publicou sua nova Estratégia de Segurança Nacional (National Security Strategy – NSS), que definiu suas prioridades geopolíticas. Nela está contida o que ficou conhecido como “corolário Trump” ou, como se classificou à época, a nova Doutrina Monroe, com a definição do continente americano como sua área de influência.

Algumas mensagens foram endereçadas de forma clara ao Brasil.

Demanda por alinhamento

Desestímulo ao “Não-Alinhamento Estratégico”: os EUA não consideram mais o neutralismo ou o não-alinhamento como posturas válidas no hemisfério. Ao prometer “negar a competidores não hemisféricos… a capacidade de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais”, Washington “desencoraja” a integração econômica contínua com Pequim.

Securitização da economia: o texto fundiu explicitamente as fronteiras entre comércio e segurança nacional ao pregar o uso de “tarifas e acordos comerciais recíprocos como ferramentas poderosas” para sugerir que o acesso ao mercado americano agora depende da conformidade em questões de segurança.

Força militar na segurança pública

Redefinição da liderança regional: a política busca “recrutar campeões regionais” para controlar a migração e o fluxo de drogas. Os EUA sinalizam que querem um parceiro para gerir o “trabalho policial” da estabilidade regional e controlar o fluxo de imigrantes e de drogas.

Normalização do uso da força militar na segurança pública: o sinal mais alarmante para o governo brasileiro — que historicamente prioriza a América do Sul como uma “Zona de Paz” — é a normalização da força militar com os EUA reservando-se o direito de intervir militarmente em nome da “estabilidade hemisférica”. Isso mina a tradição brasileira de mediar conflitos regionais através de blocos diplomáticos.

Tudo isso conversa com o anúncio americano de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas e coloca o Brasil a par da seriedade da NSS para a sua atuação no continente. Se os EUA oficializarem essa disposição, o governo brasileiro pode ser ver diante de um dilema.

Aceitar ou rejeitar

Se o Brasil ACEITAR o alinhamento e incluir o narcotráfico no conceito de terrorismo passará a permitir: (i) a extradição facilitada e jurisdição extraterritorial, com líderes das facções passando a ser alvos de tribunais americanos sob leis de contraterrorismo; (ii) operações de “Hot Pursuit”, com o uso do rótulo de terrorismo para os EUA solicitarem o estabelecimento de bases de monitoramento ou até a entrada de forças especiais em território brasileiro sob o pretexto de “ameaça iminente” ao hemisfério; (iii) controle de fluxos financeiros, com a possibilidade de o sistema bancário brasileiro ficar sujeito a uma vigilância direta do Tesouro americano. Washington bloquearia instantaneamente qualquer conta ou empresa suspeita de ligação mínima com PCC ou CV.

Se o Brasil REJEITAR essa classificação, ele pode: (i) ficar sujeito a sanções secundárias e listas negras, com os EUA podendo colocar portos e aeroportos brasileiros em “listas de observação de segurança” com aumento do custo de seguros internacionais e redução da eficiência logística das exportações brasileiras, funcionando como uma barreira comercial disfarçada; (ii) sofrer corte de assistência e tecnologia, com embargos à compra de tecnologias de defesa e até exclusão de sistemas de compartilhamento de inteligência; (iii) enfrentar ações unilaterais, se os EUA definirem que o Brasil “não consegue ou não quer” (doutrina do Unwilling or Unable) agir contra esses grupos. O governo americano pode alegar o direito de autodefesa para realizar operações unilaterais (drones ou incursões) sem o consentimento do governo.

Nenhum caminho será fácil se a classificação ocorrer.

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