O agronegócio e o setor de energia foram apresentados como os dois principais vetores da competitividade brasileira durante encontro promovido pelo Grupo VOTO nesta segunda-feira (22), em São Paulo. O evento reuniu parlamentares, empresários, especialistas e representantes do mercado para discutir os desafios da transição energética, o papel dos biocombustíveis e as perspectivas do agro como potência global. A abertura foi realizada por Karim Miskulin, presidente do Grupo VOTO.
O primeiro painel, dedicado ao tema da energia, destacou a posição privilegiada do Brasil na agenda da descarbonização. Presidente da Comissão Especial de Transição Energética e Produção de Hidrogênio Verde da Câmara dos Deputados, o deputado federal Arnaldo Jardim afirmou que o país possui vantagens estruturais difíceis de replicar por outras economias. “O Brasil tem a matriz de energia mais renovável do planeta”, afirmou. Jardim destacou iniciativas ligadas ao combustível sustentável de aviação (SAF), à produção de biogás e ao desenvolvimento da cadeia dos biocombustíveis, defendendo que o agronegócio passou a incorporar definitivamente a agenda energética. “O agro abraçou a bandeira da agroenergia”, disse.
Representando a Frente Parlamentar do Biodiesel, João Henrique Hummel argumentou que os biocombustíveis são uma forma de agregar valor à produção agrícola brasileira. “Biocombustível é a forma de industrializar a agricultura brasileira”, afirmou. Segundo ele, o país reúne condições para se tornar líder global não apenas na produção de alimentos, mas também de energia renovável. “Produção de alimento e produção de energia caminham juntas”, resumiu. Hummel também chamou atenção para a crescente relevância do Congresso Nacional na formulação das políticas públicas para o setor. “A pauta não é mais do Executivo. Não vamos esperar que o Executivo faça; busquemos o Congresso”, declarou.
Na avaliação de Luiz Laércio Machado, a transição energética brasileira já alcançou estágio avançado. “O dever de casa da transição energética já foi feito”, afirmou. Para ele, o principal desafio passa a ser o aperfeiçoamento dos sinais econômicos do setor elétrico, reduzindo distorções provocadas por subsídios acumulados ao longo de décadas. “Chegamos à saturação desse modelo. Precisamos de sinais de preço”, disse. Machado também defendeu o fortalecimento das agências reguladoras e maior previsibilidade para investidores e consumidores.
O debate avançou para os impactos da geração distribuída, especialmente da energia solar. O coordenador do painel, Wagner Ferreira, observou que a descentralização alterou profundamente a dinâmica do setor elétrico brasileiro. Segundo ele, a existência de milhões de unidades geradoras exige uma regulação mais ágil e adaptável aos novos perfis de consumo.
No segundo painel, dedicado ao agronegócio, os participantes enfatizaram que o setor ainda possui amplo espaço para ganhos de produtividade e agregação de valor. CEO da Agrolend, Alan Glezer lembrou que a receita do agro brasileiro triplicou nas últimas duas décadas, mas ressaltou que a expansão futura dependerá cada vez mais do acesso ao crédito privado. “O agro precisa de inovação financeira. O Plano Safra precisa ser apenas um dos pilares do financiamento”, afirmou. Glezer observou que o setor enfrenta um ciclo de inadimplência provocado pela combinação de juros elevados, queda dos preços agrícolas e aumento dos custos de produção.
Sócio do Maneira Advogados, Eduardo Lourenço Gregório Júnior defendeu mudanças institucionais capazes de ampliar a previsibilidade jurídica e reduzir a dependência do crédito subsidiado. “Vamos tornar o Plano Safra obsoleto”, afirmou. Segundo ele, a reforma tributária tende a contribuir para um ambiente mais estável de investimentos, mas ainda há espaço para aperfeiçoamentos regulatórios e para o fortalecimento de instrumentos como o seguro rural e a securitização de dívidas agrícolas.
Representando a Tereos Açúcar, Rodrigo Simonato destacou a sofisticação tecnológica do setor sucroenergético brasileiro. “O açúcar tem mais tecnologia embarcada do que este microfone. Precisamos entender, divulgar e apoiar isso”, afirmou. Simonato também defendeu que a sustentabilidade seja adequadamente remunerada. “A sustentabilidade precisa ser precificada no Brasil. E parar de ser entregue de graça”, disse. Para ele, o debate sobre competitividade precisa levar em conta a diversidade dos produtores rurais brasileiros e ampliar o acesso à tecnologia e ao crédito para pequenos e médios empreendedores.




