Depois de oito meses ao nível de 15%, os juros do Banco Central, para além de conter a inflação, começam a criar dificuldades reais para as empresas brasileiras. Segundo dados da consultoria RK Partners publicados pelo Estadão, o país passou a viver uma asfixia do setor produtivo, em que a riqueza produzida pelas companhias é consumida quase integralmente pelo custo do capital.
No período entre 2020 e 2021, quando a taxa Selic atingiu o piso histórico de 2% ao ano, grandes corporações e produtores rurais buscaram alavancagem agressiva, por meio de debêntures e empréstimos bancários. No entanto, a inversão da política monetária que se viu logo a seguir foi brutal, criando um descompasso entre o planejamento financeiro e a realidade do mercado. Essa é uma das principais causas da crise atual.
Trabalhar para pagar credores
Os números da RK Partners revelam uma realidade alarmante para as empresas de capital aberto. Das 282 companhias listadas na Bolsa e analisadas, 24% não conseguem gerar caixa suficiente sequer para pagar os juros de suas dívidas. Em termos práticos, essas empresas estão trabalhando exclusivamente para sustentar seus credores, sem margem para investimentos ou expansão.
A inadimplência não poupa tamanhos nem setores. O ano de 2025 encerrou com 8,9 milhões de empresas negativadas, o maior número da série histórica. Foram registrados 5.680 processos de reestruturação, evidenciando o esgotamento das reservas financeiras. Além disso, o agronegócio, antes considerado o motor resiliente da economia, lidera as insolvências, com 493 empresas em reestruturação, pressionadas por juros altos e quebras de safra.
O Copom vai falar
A crise microeconômica transborda para o consumo. O repasse de custos e a restrição de crédito atingem diretamente o cidadão. O endividamento das famílias brasileiras atingiu o patamar recorde de 80,2% em fevereiro de 2026, fechando um ciclo de estagnação que ameaça o crescimento do PIB a longo prazo.
Nesta quarta, 18, o Copom deve fazer um novo anúncio sobre a taxa de juros. Antes do início da guerra no Irã, que fez explodir os preços do petróleo, havia consenso sobre uma redução de 0,5 ponto percentual. Agora, no entanto, a expectativa majoritária é de que ela seja apenas de 0,25 p.p.. E uma parcela não desprezível do mercado teme inclusive que não haja queda. Mas o risco de uma estagnação estrutural de longo prazo da economia brasileira começa a bater à porta.




