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ECONOMIA

Crédito caro, bancos cautelosos: um recado para os candidatos

Embora a Selic esteja em queda, juros de longo prazo ainda sobem e bancos reduzem empréstimos devido à trajetória da dívida pública

Há 50 dias • por Carlos Graieb
Crédito caro, bancos cautelosos: um recado para os candidatos
BNDES. Foto: Divulgação/BNDES
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6:06

Esta semana foi marcada por dois movimentos da economia que em direções opostas. De um lado, o Banco Central reduziu pela quarta vez consecutiva a taxa Selic, agora fixada em 14% ao ano, dando sequência ao ciclo de flexibilização da política monetária. De outro, o mercado de crédito enviou sinais de contração. A Taxa de Longo Prazo (TLP), usada nos financiamentos do BNDES, ultrapassou de maneira inédita a marca de 8% ao ano, enquanto os maiores bancos privados do país revelaram ter adotado, nos balanços do segundo trimestre, posição mais cautelosa na concessão de empréstimos, elevando provisões para inadimplência e restringindo operações consideradas de maior risco.

A aparente contradição pode ser explicada. A Selic, definida pelo Banco Central, visa ao controle da inflação e influencia principalmente o custo do dinheiro no curto prazo. Já a TLP e o comportamento dos bancos refletem a percepção de risco da economia. A dívida pública brasileira voltou a crescer nos últimos anos e hoje se aproxima de 82% do PIB, patamar semelhante ao observado durante a pandemia e elevado para um país emergente.

Quando investidores e instituições financeiras avaliam que as contas públicas são frágeis, os juros de longo prazo se elevam e o crédito para empresas tende a ficar mais caro e seletivo. O resultado é um ambiente desfavorável para investimentos — justamente no momento em que a economia começa a discutir os rumos da política fiscal que será adotada pelo próximo presidente.

O impacto sobre as empresas

Grandes empresas dispõem de alternativas para captar recursos diretamente no mercado de capitais, por meio de debêntures e outros títulos privados, segmento que ganhou enorme relevância desde a redução dos subsídios do BNDES, iniciada em 2017. Pequenas e médias empresas, por sua vez, continuam dependentes do crédito bancário tradicional e das linhas do banco de desenvolvimento.

O aumento da TLP eleva o custo dos investimentos de longo prazo. Em paralelo, os bancos privados passam a exigir mais garantias e selecionar com maior rigor seus clientes. O resultado pode ser o adiamento de projetos de expansão, modernização e inovação, especialmente entre empresas que têm menor acesso às fontes privadas de financiamento.

A deterioração das condições de financiamento ajuda a explicar por que o ajuste fiscal se tornou um dos principais temas da campanha presidencial de 2026. Todos os candidatos relevantes reconhecem, em maior ou menor medida, que estabilizar a dívida pública é condição necessária para reduzir os juros estruturais e recuperar o investimento privado. As diferenças aparecem nos caminhos propostos para alcançar esse objetivo — e na disposição para se aprofundar no assunto.

Lula: ajuste, ma non troppo

A campanha sustenta que o equilíbrio das contas públicas deve ocorrer de forma gradual, preservando investimentos públicos e programas sociais. O governo atribui parte importante do crescimento da dívida ao elevado custo dos juros e defende combinar consolidação fiscal com crescimento econômico e aumento da arrecadação.

Flávio Bolsonaro: ajuste de 1,5% do PIB

A candidatura enfatiza a necessidade de um ajuste fiscal robusto, associado à redução estrutural dos gastos públicos como forma de recuperar a confiança dos investidores e acelerar a queda dos juros. A equipe econômica liderada por Daniella Marques fala em um ajuste equivalente a cerca de 1,5% do PIB e propõe mecanismos automáticos de contenção das despesas quando a dívida atingir determinados patamares. Ao mesmo tempo, procura preservar programas como o Bolsa Família e evita discutir cortes em benefícios previdenciários.

Romeu Zema: “privatizar tudo”

O ex-governador de Minas também adota uma agenda liberal, baseada em redução do tamanho do Estado, reforma administrativa, privatizações e contenção das despesas. Zema promete “privatizar tudo”. Seu discurso enfatiza a experiência de governo, mas ainda apresenta poucos detalhes sobre o volume do ajuste pretendido ou sobre os instrumentos que permitiriam estabilizar a dívida pública.

Ronaldo Caiado: abordagem cautelosa

defende responsabilidade fiscal, revisão de benefícios tributários e reformas administrativas, mas rejeita propostas como a desvinculação dos pisos constitucionais de saúde e educação ou dos benefícios previdenciários em relação ao salário mínimo. Sua estratégia procura combinar disciplina fiscal com menor desgaste político.

Renan Santos: despesas obrigatórias na mira

O candidato do Missão apresenta o programa mais detalhado e também o mais ambicioso. Defende uma ampla reforma das despesas obrigatórias, incluindo desvinculações constitucionais, mudanças nas regras de reajuste de benefícios sociais e previdenciários, reforma administrativa e substituição do atual arcabouço fiscal por um novo regime de controle das despesas.

O desafio que permanece

As propostas dos candidatos para enfrentar o grande desafio fiscal brasileiro ainda parecem insuficientemente desenvolvidas. Todos reconheçam a necessidade de estabilizar a dívida pública, mas boa parte evita enfrentar justamente os temas mais controversos — como a revisão das despesas obrigatórias, das vinculações constitucionais e dos mecanismos automáticos de crescimento do gasto. O resultado é que o diagnóstico se mostra consensual, mas os caminhos para realizar um ajuste fiscal consistente continuam pouco claros. Para empresas e investidores, essa é uma das questões cruciais da campanha presidencial de 2026.

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