O Banco Central divulgou o mais recente Boletim Focus na manhã desta segunda, 25, consolidando a percepção de que controlar a inflação continua sendo uma tarefa desafiadora. A mediana das projeções do mercado financeiro para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 subiu de 4,92% para 5,04%, marcando a 11ª elevação semanal consecutiva nas expectativas e afastando-se consideravelmente do teto da meta, de 4,5%.
Nesse cenário, a estimativa do mercado para a taxa básica de juros, a Selic, também se mantém elevada. Segundo as projeções, a taxa anualizada, ao final de 2026, deve ser de 13,25%. Para os anos seguintes, o mercado estima Selic em 11,25% (2027) e 10,00% (2028 e 2029).
O Diagnóstico do IBRE
Para além dos números do mercado, a dinâmica inflacionária brasileira ganhou contornos inéditos de complexidade. Em uma análise aprofundada dividida em duas partes no Blog do IBRE/FGV, os economistas André Braz e Matheus Dias alertam que a inflação brasileira atual é “multifatorial e persistente”, não podendo mais ser explicada ou combatida como se resultasse de um choque isolado.
Os autores destacam que o IPCA acumulado em 12 meses, até abril de 2026, atingiu 4,39%, empurrado por uma combinação de forças.
Primeiro, o setor de serviços registrou inflação de 5,47%, devido ao mercado de trabalho aquecido, com desemprego baixo e crescimento real de salários.
O segundo fator foi a alta de 6,12% dos preços administrados, especialmente de energia elétrica e derivados de petróleo.
Por fim, a transmissão dos custos de energia aos preços de insumos industriais, como resinas e asfalto, eleva índices como o INCC (construção civil).
Braz e Dias alertam que, ao contrário do petróleo, que sofre um choque de oferta devido à guerra no Irã, o custo da energia elétrica deixou de ser influenciado apenas por questões conjunturais. A expansão acelerada de data centers, frota de veículos elétricos, infraestrutura digital e eletrificação industrial gerando um choque estrutural ne demanda de energia.
“O ponto principal é que a inflação brasileira mudou de natureza”, diz o artigo. “Ela deixou de ser explicada apenas por choques externos temporários ou por grupos isolados. Hoje, o desafio está na interação entre choques de oferta, custos estruturais, serviços resilientes e expectativas.” Segundo eles, a equação também deve levar em conta “a dimensão fiscal”, ou seja, o aumento contínuo dos gastos do governo e da dívida pública.
Os economistas apresentam dois cenários para os próximos anos. No cenário base, o IPCA ficaria em 5,2% (2026), 4,7% (2027) e 4,1% (2028). No pessimista, alcançaria 5,45% em 2026. Segundo Braz e Dias, “a credibilidade da política monetária é um dos fatores que distingue um cenário do outro”. Ou seja, sem o firme ancoramento de expectativas pelo Banco Central, choques externos como o do petróleo tenderão a se propagar com maior intensidade pela economia.
A conjuntura não favorece uma redução mais rápida da taxa Selic.
Alguma saída? A sugestão de Werlang
Em artigo recente para o Broadcast do Estadão, o economista e ex-diretor do BC Sergio Werlang propõe uma mudança tática na condução da política monetária.
Segundo ele, o Comitê de Política Monetária (Copom) deveria estender o prazo para a convergência da inflação com a meta.
Atualmente, as projeções do BC tm horizontes de aproximadamente 18 meses, mirando o encerramento de 2027. No entanto, observa Werlang, as expectativas de mercado para 2028 já estão acima da meta, sobretudo em razão das incertezas fiscais e geopolíticas.
Segundo o economista, tentar forçar uma queda rápida da inflação em direção à meta induziria uma recessão desnecessária. Ao transferir formalmente para 2029 a data de convergência, o BC poderia manter uma política de flexibilização dos juros sem abrir mão da credibilidade monetária.




