Buscar
EQUILíBRIO DA VIDA

A coragem de se cuidar

Você toma decisões importantes todos os dias. Mas quando foi a última vez que tomou uma decisão sobre você mesmo?

Há 136 dias • por Luciana Pianaro
A coragem de se cuidar
Foto: cookie_studio on Magnific
Ouça este conteúdo A coragem de se cuidar
8:18

Fui convidada, há pouco tempo, para conhecer uma clínica de medicina da longevidade aqui em São Paulo. Entrei sem grandes expectativas — acredito que me conheço bem, que sei o que faço pelo meu corpo e pela minha mente. Afinal, dediquei anos da minha vida à Revista Vida Simples, mergulhei fundo nos temas de bem-estar, saúde integral, autoconhecimento. Tenho bons hábitos e tenho disciplina. Meus exames de check-up e vacinas estão em dia. Ousaria dizer, que tenho uma relação consciente com minha própria saúde.

E mesmo assim, saí de lá diferente do que entrei.

Espelho inesperado

Dr Arthur Feltrin, médico que me atendeu, depois de uma consulta longa e atenciosa, o tipo de conversa em que alguém realmente ouve, não apenas anota, me fez uma pergunta: “Se você tivesse uma lâmpada do gênio e pudesse fazer três pedidos para sua saúde, quais seriam?”

Fiz uma pausa, não esperava por isso. Respondi duas: “Doutor, quero ter força e vitalidade para envelhecer bem, bem-estar emocional para poder cuidar de meu filho que ainda é pequeno”. Faltou uma, a qual ele me ajudou: “talvez um intestino melhor”. Realmente meu intestino carece de mais cuidados.

Foi um espelho inesperado. Aquela pergunta não tão simples me ajudou a perceber o quanto ainda posso melhorar nos cuidados comigo mesma.

O problema não é falta de informação. O problema é que cuidar de si exige uma coisa que os líderes mais ocupados raramente se dão: atenção voltada para dentro.

Algo que me intriga há anos  e que se torna cada vez mais urgente quando olho para o perfil de quem lidera o Brasil. Empresários e empresárias. Políticos. Pessoas que tomam decisões que impactam vidas, setores inteiros, o rumo de uma nação. Gente de inteligência excepcional, de agenda impossível, de resiliência admirável.

E que, com uma frequência que me assusta, não se cuida de verdade.

Parar à força

Compreendo totalmente a agenda insana de reuniões, viagens, eventos, dedicação ao trabalho.  “Não estou tendo tempo de respirar.” “Quando as coisas acalmarem, eu vou ao médico.” “Estou bem, só cansado.” Frases que ouço o tempo todo. Frases que conheço, porque já as disse em algum momento.

Depois que tive dois burnouts, o primeiro não tratado adequadamente pois “o trabalho precisava de mim e eu não teria tempo de parar”, o segundo, mais grave, me tirou totalmente de circulação e inclusive me fez decidir parar totalmente para um sabático, posso dizer com conhecimento de causa: quando você não se cuida, você pode parar à força.

O que eu aprecio na abordagem da medicina da longevidade, foco da clínica Longevitar que visitei — é que o cuidado de que estou falando não é sobre correr uma maratona, eliminar totalmente o glúten ou lactose. É sobre antecipar e prevenir o que pode nos acontecer.

É entender que condições cardiovasculares, alterações metabólicas, processos inflamatórios crônicos, comprometimentos cognitivos — tudo isso se constrói em silêncio, ao longo de anos, muito antes de virar um diagnóstico. E que as decisões que tomamos hoje, sobre sono, sobre alimentação, sobre gestão do estresse, sobre os hormônios que regulam nossa energia e nosso humor, têm consequências que a gente só vai colher daqui a uma ou duas décadas.

O médico me explicou um dado alarmante: até os 50 anos, quem mais sofre infartos e AVCs são os homens. Depois dos 50, essa curva muda dramaticamente para as mulheres — em grande parte pela menopausa e pela perda de proteção hormonal. Esse tipo de informação muda a forma como você olha para o tempo. Não é para gerar pavor, é sobre inteligência e  clareza. E clareza é uma das ferramentas mais poderosas que um líder pode ter — inclusive sobre si mesmo.

Longevidade não é sobre viver mais. É sobre viver bem por mais tempo. Sobre manter discernimento, mobilidade, presença — as condições para continuar sendo quem você é.

Não é por acaso que as conversas sobre saúde executiva têm ganhado espaço nas melhores organizações do mundo. O conceito de que um líder em deterioração silenciosa — física, emocional, cognitiva — é um risco real para a empresa começa a ser levado a sério. Não como pauta de RH, mas como pauta estratégica. Porque um CEO que não dorme bem toma decisões diferentes. Um executivo cronicamente estressado tem uma janela de atenção menor, uma regulação emocional comprometida, uma leitura de risco distorcida. O custo é imenso. E invisível, até que não seja mais.

Cultura do Cuidado

Tenho trabalhado há anos com o conceito de Cultura do Cuidado — a ideia de que organizações saudáveis começam por líderes que sabem cuidar de si. Não é uma ideia soft. É uma ideia estrutural. Porque você não pode oferecer aquilo que não tem. Não pode sustentar uma liderança eficiente se você mesmo está operando no limite, anestesiado de cansaço, desconectado do próprio corpo.

Sou, por natureza e por escolha, alguém que se cuida muito. Sei que sou fora da curva — e não digo isso com vaidade, mas com a consciência de que me custou esforço, atenção e muitas decisões difíceis ao longo da  vida, que me exigiram muita coragem de deixar para trás comportamentos, hábitos e relações com pessoas e trabalho que já não faziam bem à minha saúde.  E é exatamente isso que dá nome a esta coluna: coragem. Coragem de priorizar o que não tem prazo de entrega imediato. Coragem de dizer não a compromissos que drenam. Coragem de ir a consultas que revelam o que você preferiria não saber, mas que precisa saber. Coragem de mudar hábitos que estão confortavelmente instalados há décadas.

Coragem de se tratar como um ativo que merece manutenção, e não como uma máquina que só para quando quebra.

Não existe versão de sucesso sustentável que não passe pelo seu corpo, pela sua mente, pela sua capacidade de estar presente e inteiro.

Saí daquela consulta com um plano concreto — dieta focada no ganho de músculos e melhoria intestinal, um e ”life coach” que vai acompanhar meus hábitos. Mas saí, sobretudo, com uma pergunta que ainda ressoa dentro de mim: quais são os meus três pedidos? O que eu realmente quero para os próximos vinte, trinta anos de vida? Que tipo de presença quero ter? Em que condição quero estar para tudo que ainda está por vir?

São perguntas que qualquer pessoa deveria fazer. Mas que as pessoas nesta sala — as que carregam decisões pesadas, que moldam estruturas, que têm a responsabilidade de liderar — precisam fazer com uma urgência particular. Porque o tempo não espera. E porque, no fim, a maior decisão estratégica que você pode tomar é sobre você.

Comece agora. Não quando as coisas acalmarem.

Elas não vão acalmar.

***

Luciana Pianaro é mãe, empreendedora e escritora.

Visitou o espaço à convite da Clínica Longevitar – Clínica de Medicina Regenerativa e Longevidade

ASSINE NOSSA NEWSLETTER