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EQUILíBRIO DA VIDA

Solitário andar por entre a gente

Verso de Camões que aparece no título capta uma verdade: solidão não é o mesmo que estar sozinho e lideranças sentem isso com força

Há 110 dias • por Luciana Pianaro
Solitário andar por entre a gente
Foto: Ilustração ChatGPT
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5:22

Imagine uma agenda de se­gunda a sexta completamen­te tomada. Reuniões, via­gens, decisões, entregas, pessoas pedindo, pessoas esperando. No fim do dia, centenas de mensagens no whatsapp. Nos fins de semana, as mensagens não param. Há com­promissos que parecem urgentes demais para esperar e problemas que parecem grandes demais para delegar. Você carrega tudo isso com uma competência que muitos admi­ram.

E então, num raro momento de silêncio — talvez no avião, entre uma reunião e outra ou no quarto do hotel onde se hospeda — surge um sentimento que você não espe­rava encontrar ali. Não é tristeza, nem insatisfação, mas um vazio. É uma solidão estranha, silenciosa, que não combina com a vida agita­da e cercada de pessoas que você construiu.

Epidemia

Em 2023, o médico-geral dos Es­tados Unidos, Vivek Murthy, publi­cou um relatório de 85 páginas de­clarando a solidão uma epidemia de saúde pública comparável, em risco de mortalidade, ao hábito de fumar 15 cigarros por dia. A Organização Mundial da Saúde criou, no mesmo ano, uma Comissão Internacional sobre Conexão Social, a primeira iniciativa global dedicada exclusi­vamente ao tema. Pesquisas do instituto Gallup ouvindo 142 países concluíram que um em cada quatro adultos no mundo se sente involun­tariamente sozinho. No Brasil, uma pesquisa da Ipsos chegou a um nú­ mero ainda mais incômodo: somos um dos países mais solitários entre as 28 nações pesquisadas.

Solidão não é o mesmo que es­tar sozinho. É possível estar cercado de pessoas numa sala de reunião, em um jantar de gala, em uma festa que você mesmo organizou e sentir uma distância intransponível entre você e todos os outros. É possível ter centenas de contatos no celular e não ter com quem falar de verda­de. É possível ser admirado por mui­tos e conhecido a fundo por quase ninguém.

Para quem chegou ao topo, essa distinção é especialmente pertinen­te. Uma pesquisa da Harvard Bu­siness Review descobriu que 55% dos CEOs reconhecem sentir soli­dão de forma significativa em seus cargos — e que 61% acreditam que esse isolamento compromete dire­tamente suas decisões. Não porque não há pessoas ao redor. Mas por­que há poucas com quem é seguro ser verdadeiramente inteiro.

Gerenciar sentimentos

O mecanismo que produz essa solidão foi sendo construído ao lon­go de anos de carreira bem-sucedi­da. Para chegar aonde chegou, você aprendeu a administrar suas emo­ções para fora: a projetar confiança quando sentia dúvida, a manter a compostura quando sentia pressão, a dar respostas imediatas quando ainda precisava refletir mais. O há­bito de gerenciar tudo o que se sen­te, se praticado por bastante tempo, tende a minimizar a capacidade de simplesmente sentir.

Os pesquisadores chamam esse fenômeno de dissonância emocio­nal — o abismo entre a emoção vivida e a emoção expressa. É um estado de performance permanen­te que, segundo os estudos, está entre os fatores mais desgastantes na vida de líderes de alto desem­penho. Não o estresse das grandes decisões, que é visível e tem nome. Mas o peso silencioso de nunca po­der aparecer como de fato se está.

A epidemia de solidão que os pesquisadores descrevem tem ra­ízes profundas e antigas: a cultura de produtividade que transformou o tempo livre em culpa, o trabalho remoto que substituiu o convívio por chamadas de vídeo, a acelera­ção do cotidiano que deixou cada vez menos espaço para as conver­sas que não têm pauta, para os en­contros que não têm objetivo, para os silêncios compartilhados que são, no fim, onde a intimidade real vive.

Cuidado emocional

Reconhecer que está se sentin­do sozinho — mesmo quando sua agenda não deixa espaço para ela — é um ato de cuidado emocional consigo mesmo.

Conseguir interromper o piloto automático por tempo suficien­te para perceber que há algo que pede atenção não é fraqueza, pelo contrário, é exatamente o tipo de lucidez que distingue quem apenas executa de quem realmente lidera a própria vida.

Quando foi a última vez que você teve uma conversa — não uma reunião, não uma negociação, não uma troca de informações — mas uma conversa real, em que você pode aparecer por inteiro, sem agenda, sem papel a desempenhar, mostrando todas as suas fragilida­des, medos e aflições?

A resposta que vier — e o tempo que você levar para encontrá-la — dizem tudo sobre a vida que você está, de fato, vivendo.

*Luciana Pianaro é mãe, empreendedora e escritora.

@lucianapianaro

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