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ECONOMIA

Skaf: “Gastos públicos irresponsáveis são o problema central no Brasil”

Nova edição da revista V traz na capa entrevista exclusiva com Paulo Skaf, que mais uma vez exerce a presidência da Fiesp

Há 127 dias • por Carlos Graieb
Skaf: “Gastos públicos irresponsáveis são o problema central no Brasil”
Paulo Skaf, presidente da Fiesp. Foto: Ivan Pacheco/V
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De volta ao comando da Fiesp no início de 2026, após um hiato de quatro anos — e para ampliar o seu período anterior de 17 anos à frente da entidade — Paulo Skaf retoma tam­bém símbolos de sua trajetória. Réplicas do pato amarelo de 2015, criado numa campanha contra o aumento de impostos, reaparecem em seu escritório, em diversos tamanhos. Os patinhos são mais que ornamentos: indicam a disposição de voltar ao debate público com a mesma ênfase de antes.

Nesta entrevista à revista V, Skaf critica os elevados juros básicos da economia e atribui o problema ao desequilí­brio fiscal. Ele também alerta para os riscos de mudanças apressadas na jornada 6×1 e rejeita o uso eleitoral do tema, além de anunciar que o fim da “taxa das blusinhas” será questionado na Justiça. Ao falar sobre a implementação da reforma aprovada em 2023, ele diz que per­sistem algumas dúvidas sobre o valor final da alíquota do imposto de valor agregado que ela criou. E alerta: “Diante de qualquer tentativa de aumentar a carga tributária no Brasil, o pato volta a circular”.

Qual é a principal demanda do se­tor industrial para os candidatos à presidência?

A indústria tem um peso muito relevante no PIB brasileiro — cer­ca de 22%. Isso inclui não apenas a indústria de transformação, que responde por aproximadamente 11% e engloba tudo o que vemos no cotidiano, mas também cons­trução, mineração e a produção de água, energia e gás. Esse conjunto representa cerca de um quinto da economia. Por isso, não podemos ter demandas restritas à indústria. É necessário pensar o país como um todo.

Não adianta criar políticas es­pecíficas para o setor se o ambiente econômico for hostil, como ocorre hoje, com juros elevados. Temos uma taxa Selic de 14,5% diante de uma inflação projetada de 4,5% — ou seja, juros três vezes superio­res à inflação. No crédito efetivo às empresas, esse custo pode chegar a cinco ou seis vezes a inflação. No cartão de crédito, as taxas ultrapas­sam 400% ao ano. Isso prejudica a sociedade, a competitividade, o consumo e a geração de emprego e renda. Por isso, nossa visão é abran­gente: queremos propostas que beneficiem o Brasil como um todo. Pretendemos apresentá-las após a eleição, ao presidente eleito, com base em medidas maduras, viáveis e estruturantes.

Há duas formas de abordar o pro­blema dos juros: reduzir a taxa diretamente ou atacar questões mais básicas, como o desequilí­brio fiscal, e aguardar os efeitos. Qual o senhor defende?

O problema central está nos gas­tos públicos, que são elevados, mui­tas vezes irresponsáveis e mal exe­cutados. Isso gera déficits primários contínuos. A dívida pública federal já chega a cerca de R$ 10 trilhões, e o serviço dessa dívida custa apro­ximadamente R$ 1 trilhão por ano. Ou o governo se reestrutura, reduz seu tamanho, melhora a eficiência e passa a gastar com qualidade, ou continuará sendo o principal res­ponsável pelos juros elevados e pelo ambiente econômico desfavorável. Além disso, há falhas na prestação de serviços essenciais – a educação, saúde, segurança – e problemas re­correntes de corrupção. Tudo isso precisa ser corrigido. O governo de­veria facilitar a vida da sociedade, não criar obstáculos.

Corrigir o problema fiscal leva al­gum tempo. Por onde começar?

Um exemplo vale mais do que mil palavras. Vejo no governo atual uma tendência de adotar medidas com viés eleitoral, muitas vezes além de sua capacidade fiscal. Isso inclui propostas e até emendas constitucionais apresentadas como benéficas, mas que podem prejudi­car a competitividade e a economia no médio prazo. O ponto de partida, portanto, é atuar com responsabi­lidade e sobriedade. Se os três po­deres dessem essa sinalização, lem­brando que é sempre a sociedade quem arca com o custo público, já seria um grande avanço.

O setor empresarial se preocupa com a provável redução da jorna­da de trabalho 6×1. O que a Fiesp está fazendo a respeito disso?

O governo encaminhou um pro­jeto de lei que tenta alterar um dis­positivo constitucional por meio de legislação ordinária, o que é incons­titucional. Não podemos judicializar antes da aprovação do projeto, mas buscamos uma alternativa, via Con­gresso. O deputado Ricardo Salles (Novo-SP) ingressou com mandado de segurança questionando a pro­posta. No caso das PECs, o debate está em curso. Iniciamos diálogo com o relator e vamos acompanhar de perto. Não considero que a apro­vação seja inevitável.

A discussão é relevante, mas não deve ser con­duzida sob pressão eleitoral, muito menos eleitoreira. Estamos falando de 45 milhões de trabalhadores for­mais, dos quais cerca de 30% atuam no regime 6 por 1. Na indústria, esse percentual é ainda maior, acima de 40%. Trata-se de um tema comple­xo, que exige análise setorial. A re­alidade da indústria não é igual à da saúde, que não é igual à do comér­cio, que não é igual à da pecuária leiteira, que não é igual da pecuária de corte. E assim por diante. Não é possível conduzir um debate res­ponsável em ritmo acelerado, como se pretende.

Existe plano B caso a proposta avance, como é possível que ocor­ra?

Não trabalhamos com plano B neste momento. Nosso foco é ga­rantir que o debate seja postergado para ocorrer com a devida respon­sabilidade. Uma mudança dessa magnitude impacta emprego, infor­malidade e inflação. O exemplo do Chile mostra que alterações na jor­nada podem aumentar a informali­dade e o desemprego. Não sou con­tra discutir o tema, mas sou contra decisões precipitadas e mal funda­mentadas.

Para ler a entrevista completa, acesse a edição 168 da revista V.

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