De volta ao comando da Fiesp no início de 2026, após um hiato de quatro anos — e para ampliar o seu período anterior de 17 anos à frente da entidade — Paulo Skaf retoma também símbolos de sua trajetória. Réplicas do pato amarelo de 2015, criado numa campanha contra o aumento de impostos, reaparecem em seu escritório, em diversos tamanhos. Os patinhos são mais que ornamentos: indicam a disposição de voltar ao debate público com a mesma ênfase de antes.
Nesta entrevista à revista V, Skaf critica os elevados juros básicos da economia e atribui o problema ao desequilíbrio fiscal. Ele também alerta para os riscos de mudanças apressadas na jornada 6×1 e rejeita o uso eleitoral do tema, além de anunciar que o fim da “taxa das blusinhas” será questionado na Justiça. Ao falar sobre a implementação da reforma aprovada em 2023, ele diz que persistem algumas dúvidas sobre o valor final da alíquota do imposto de valor agregado que ela criou. E alerta: “Diante de qualquer tentativa de aumentar a carga tributária no Brasil, o pato volta a circular”.
Qual é a principal demanda do setor industrial para os candidatos à presidência?
A indústria tem um peso muito relevante no PIB brasileiro — cerca de 22%. Isso inclui não apenas a indústria de transformação, que responde por aproximadamente 11% e engloba tudo o que vemos no cotidiano, mas também construção, mineração e a produção de água, energia e gás. Esse conjunto representa cerca de um quinto da economia. Por isso, não podemos ter demandas restritas à indústria. É necessário pensar o país como um todo.
Não adianta criar políticas específicas para o setor se o ambiente econômico for hostil, como ocorre hoje, com juros elevados. Temos uma taxa Selic de 14,5% diante de uma inflação projetada de 4,5% — ou seja, juros três vezes superiores à inflação. No crédito efetivo às empresas, esse custo pode chegar a cinco ou seis vezes a inflação. No cartão de crédito, as taxas ultrapassam 400% ao ano. Isso prejudica a sociedade, a competitividade, o consumo e a geração de emprego e renda. Por isso, nossa visão é abrangente: queremos propostas que beneficiem o Brasil como um todo. Pretendemos apresentá-las após a eleição, ao presidente eleito, com base em medidas maduras, viáveis e estruturantes.
Há duas formas de abordar o problema dos juros: reduzir a taxa diretamente ou atacar questões mais básicas, como o desequilíbrio fiscal, e aguardar os efeitos. Qual o senhor defende?
O problema central está nos gastos públicos, que são elevados, muitas vezes irresponsáveis e mal executados. Isso gera déficits primários contínuos. A dívida pública federal já chega a cerca de R$ 10 trilhões, e o serviço dessa dívida custa aproximadamente R$ 1 trilhão por ano. Ou o governo se reestrutura, reduz seu tamanho, melhora a eficiência e passa a gastar com qualidade, ou continuará sendo o principal responsável pelos juros elevados e pelo ambiente econômico desfavorável. Além disso, há falhas na prestação de serviços essenciais – a educação, saúde, segurança – e problemas recorrentes de corrupção. Tudo isso precisa ser corrigido. O governo deveria facilitar a vida da sociedade, não criar obstáculos.
Corrigir o problema fiscal leva algum tempo. Por onde começar?
Um exemplo vale mais do que mil palavras. Vejo no governo atual uma tendência de adotar medidas com viés eleitoral, muitas vezes além de sua capacidade fiscal. Isso inclui propostas e até emendas constitucionais apresentadas como benéficas, mas que podem prejudicar a competitividade e a economia no médio prazo. O ponto de partida, portanto, é atuar com responsabilidade e sobriedade. Se os três poderes dessem essa sinalização, lembrando que é sempre a sociedade quem arca com o custo público, já seria um grande avanço.
O setor empresarial se preocupa com a provável redução da jornada de trabalho 6×1. O que a Fiesp está fazendo a respeito disso?
O governo encaminhou um projeto de lei que tenta alterar um dispositivo constitucional por meio de legislação ordinária, o que é inconstitucional. Não podemos judicializar antes da aprovação do projeto, mas buscamos uma alternativa, via Congresso. O deputado Ricardo Salles (Novo-SP) ingressou com mandado de segurança questionando a proposta. No caso das PECs, o debate está em curso. Iniciamos diálogo com o relator e vamos acompanhar de perto. Não considero que a aprovação seja inevitável.
A discussão é relevante, mas não deve ser conduzida sob pressão eleitoral, muito menos eleitoreira. Estamos falando de 45 milhões de trabalhadores formais, dos quais cerca de 30% atuam no regime 6 por 1. Na indústria, esse percentual é ainda maior, acima de 40%. Trata-se de um tema complexo, que exige análise setorial. A realidade da indústria não é igual à da saúde, que não é igual à do comércio, que não é igual à da pecuária leiteira, que não é igual da pecuária de corte. E assim por diante. Não é possível conduzir um debate responsável em ritmo acelerado, como se pretende.
Existe plano B caso a proposta avance, como é possível que ocorra?
Não trabalhamos com plano B neste momento. Nosso foco é garantir que o debate seja postergado para ocorrer com a devida responsabilidade. Uma mudança dessa magnitude impacta emprego, informalidade e inflação. O exemplo do Chile mostra que alterações na jornada podem aumentar a informalidade e o desemprego. Não sou contra discutir o tema, mas sou contra decisões precipitadas e mal fundamentadas.
Para ler a entrevista completa, acesse a edição 168 da revista V.




