A base do governo federal retirou o apoio à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que amplia a autonomia administrativa do Banco Central (BC), projeto que tramitava na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado e estava previsto para votação na próxima semana. A decisão ocorreu logo depois de o presidente do BC, Gabriel Galípolo, depor na CPI do Crime Organizado, sem endossar a narrativa esperada pelo Planalto.
O motivo para a retirada de apoio foi estritamente político, no pior sentido da palavra, sem qualquer relação com o que seria melhor ou pior para a instituição. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) deixou isso claro em postagem nas redes sociais. O PT pressionava para que Galípolo envolvesse seu antecessor, Roberto Campos Neto, no escândalo do Banco Master. Ele disse, em vez disso, que análises internas não haviam revelado nenhum indício de falha do executivo nomeado ao BC por Jair Bolsonaro.
Jogo combinado
Segundo a jornalista Malu Gaspar, em artigo publicado nesta quinta em O Globo, reunião no Palácio do Planalto com o presidente Lula, os ministros Rui Costa (Casa Civil), Sidônio Palmeira (Comunicação Social) e Fernando Haddad (Fazenda) traçou a estratégia de responsabilizar Campos Neto pelo caso Master. Lula pediu que Galípolo transformasse um relatório preliminar – uma linha do tempo que apontava decisões da gestão anterior – em documento oficial da instituição, para embasar ataques públicos ao ex-presidente do BC.
Na audiência no Congresso, porém, Galípolo contrariou o roteiro. “Não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos”, disse ele.
Trama rasteira
O episódio só reforça a importância de ampliar a autonomia do BC. Como disse o próprio Galípolo nesta quinta-feira (9), em um evento em São Paulo: “Autonomia significa algo que é muito caro ao Banco Central, que é não estar disponível para negociar seu mandato”.
Políticos tendem a não respeitar limites se não forem obrigados a tanto. Historicamente, governantes pressionam a direção do BC para manipular a taxa de juros em prol de interesses de curto prazo; neste caso, buscaram cooptá-lo para uma trama política ainda mais rasteira.




