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ECONOMIA

Projeto Natureza, uma oportunidade que o RS não pode desperdiçar

Estado precisa decidir se quer ser conhecido, ou não, como lugar que protege o meio ambiente e também sabe receber grandes investimentos

Há 92 dias • por Felipe Vieira
Projeto Natureza, uma oportunidade que o RS não pode desperdiçar
Planta industrial da CMPC. Foto: Divulgação
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9:46

O Rio Grande do Sul enfrenta um dos momentos mais decisivos de sua história recente. Em jogo não está apenas a construção de uma nova fábrica de celulose, mas a imagem que o estado pretende transmitir ao Brasil e ao mundo sobre sua capacidade de receber grandes investimentos.

O Projeto Natureza, da multinacional chilena CMPC, representa um investimento estimado em R$ 27 bilhões, o maior empreendimento privado da história do Rio Grande do Sul. A iniciativa prevê uma fábrica com capacidade para produzir até 3 milhões de toneladas de celulose por ano, a geração de mais de 6 mil empregos, além da construção de um novo terminal portuário em Rio Grande, com investimento de aproximadamente R$ 1,5 bilhão, essencial para o escoamento da produção. A operação está prevista para começar em 2029.

Licenciamento e segurança institucional

É evidente que um projeto dessa dimensão precisa cumprir rigorosamente toda a legislação ambiental brasileira. Não existe desenvolvimento sustentável sem proteção ao meio ambiente. Também não existe segurança jurídica sem respeito às comunidades potencialmente afetadas, incluindo povos indígenas, quando houver impacto comprovado. Os estudos ambientais devem ser completos, as consultas previstas em lei precisam ser realizadas e todas as exigências técnicas devem ser observadas.

Esse ponto não está em discussão.

Outra questão precisa ser debatida: até que ponto o processo de licenciamento pode criar um ambiente de insegurança capaz de comprometer um investimento estratégico para todo o Estado?

Durante reunião-almoço da Federasul, o diretor-geral da CMPC no Brasil, Antonio Lacerda, afirmou que as exigências apresentadas pelo Ministério Público Federal são inéditas e, na avaliação da empresa, extrapolam o procedimento técnico do licenciamento. Segundo ele, a companhia vem cumprindo todas as determinações da Fepam, órgão responsável pelo licenciamento ambiental, e confia que a audiência de conciliação na Justiça Federal possa construir uma solução equilibrada.

Mais do que isso, Lacerda revelou que a empresa trabalha no Projeto Natureza há aproximadamente dois anos e já investiu cerca de US$ 400 milhões apenas na fase de preparação do empreendimento.

São números que demonstram compromisso concreto com o Rio Grande do Sul.

O caso Ford

Independentemente de quem tenha razão jurídica — questão que caberá exclusivamente ao Poder Judiciário decidir — o episódio já produz um efeito preocupante: investidores acompanham atentamente tudo o que acontece.

O Rio Grande do Sul conhece, por experiência própria, o preço de perder grandes investimentos. O caso mais emblemático foi o da Ford. A montadora já havia anunciado sua instalação no estado e preparava um investimento que prometia transformar a economia gaúcha. No entanto, a sucessão de impasses políticos, mudanças nas condições negociadas, insegurança para o investidor e o ambiente de conflito criado em torno do projeto levaram a empresa a desistir do Rio Grande do Sul.

O resultado é conhecido.

A Ford transferiu o investimento para Camaçari, na Bahia, onde construiu um dos maiores complexos automotivos do país. Milhares de empregos, uma extensa cadeia de fornecedores, desenvolvimento tecnológico e bilhões de reais em riqueza deixaram de ser gerados no território gaúcho.

Na época, muitos comemoraram a saída da empresa, afirmando que o estado havia evitado conceder benefícios considerados excessivos. O tempo mostrou que a discussão era muito menor do que as consequências econômicas daquela decisão.

Quando a Ford encerrou suas operações industriais no Brasil, alguns chegaram a afirmar que o Rio Grande do Sul havia escapado de um mau negócio.

Mais uma vez, a realidade desmentiu essa narrativa.

A montadora chinesa BYDO assumiu o antigo complexo da Ford em Camaçari e está transformando a área no maior polo de produção de veículos eletrificados da América Latina. O novo empreendimento prevê R$ 5,5 bilhões em investimentos, capacidade inicial para produzir 150 mil veículos por ano, com expansão para 600 mil unidades anuais, além da geração de até 20 mil empregos diretos e indiretos.

Efeito multiplicador

A principal lição desse episódio permanece atual.

Grandes investimentos não desaparecem quando deixam um Estado. Eles simplesmente encontram outro lugar disposto a recebê-los.

Se um ambiente se torna hostil, inseguro ou incapaz de oferecer previsibilidade, o capital segue seu caminho. Outro Estado abre as portas, oferece estabilidade e colhe os empregos, a renda, os impostos e o desenvolvimento que poderiam ter ficado aqui.

O Rio Grande do Sul não pode permitir que a história da Ford se transforme, quase três décadas depois, na história da CMPC.

É exatamente por isso que o caso da CMPC ultrapassa os interesses de uma única empresa.

O vice-presidente de Economia da Federasul, Fernando Marchet, apresentou um dado que merece reflexão. Um investimento produtivo dessa magnitude não transforma apenas o município onde será instalado. Ele reorganiza cadeias produtivas inteiras, atrai fornecedores, amplia a arrecadação, impulsiona serviços, gera inovação e produz desenvolvimento regional durante décadas.

É esse efeito multiplicador que está em jogo.

Percepções do mercado

Perder um investimento de R$ 27 bilhões significaria muito mais do que deixar de construir uma fábrica de celulose. Representaria um duro golpe na credibilidade do Rio Grande do Sul perante investidores nacionais e internacionais.

Grandes empresas escolhem onde investir observando critérios muito objetivos. Elas analisam a qualidade da infraestrutura, a disponibilidade de mão de obra, o potencial logístico, a carga tributária e, principalmente, a segurança jurídica. Nenhum conselho de administração aprova um investimento bilionário sem avaliar cuidadosamente o ambiente institucional onde o projeto será implantado.

Quando um empreendimento desse porte enfrenta obstáculos sucessivos, disputas intermináveis e incertezas que ultrapassam o debate técnico, a mensagem que chega ao mercado é extremamente negativa. Outros grupos empresariais passam a questionar se vale a pena investir no Rio Grande do Sul ou se é mais prudente direcionar seus recursos para estados que ofereçam maior previsibilidade.

Essa percepção não afeta apenas um projeto. Ela contamina todos os demais. Hoje é a CMPC. Amanhã poderá ser uma indústria automobilística, um fabricante de semicondutores, um grande projeto de energia limpa, um centro de tecnologia ou qualquer outro empreendimento estratégico.

Investidores conversam entre si. Compartilham experiências. Avaliam riscos. Um caso de insegurança institucional repercute muito além das fronteiras do Estado e pode influenciar decisões de investimento durante muitos anos.

Nenhum Estado consegue crescer sustentadamente carregando a fama de ser um lugar onde grandes projetos enfrentam obstáculos intermináveis.

Credibilidade

Isso não significa flexibilizar a legislação ambiental. Muito pelo contrário. O licenciamento precisa ser rigoroso, técnico, transparente e absolutamente comprometido com a preservação ambiental. É preciso ouvir as comunidades potencialmente afetadas, aprofundar estudos quando necessário e garantir todos os direitos da legislação.

Mas também é obrigação do Estado assegurar que os processos ocorram com objetividade, prazos razoáveis e segurança jurídica. Quem investe bilhões de reais precisa saber exatamente quais regras deve cumprir e ter confiança de que elas serão aplicadas de forma técnica, equilibrada e previsível.

O Projeto Natureza tornou-se um teste para o Rio Grande do Sul. Se o Estado demonstrar que é capaz de conciliar proteção ambiental, respeito às comunidades, desenvolvimento econômico e segurança jurídica, sairá fortalecido e enviará ao mundo um sinal claro de maturidade institucional.

Se falhar, perderá muito mais do que um investimento de R$ 27 bilhões.

Perderá credibilidade.

E credibilidade é um patrimônio que leva décadas para ser construído, mas pode ser destruído por uma única decisão equivocada.

O Rio Grande do Sul vive um momento de reconstrução após as maiores tragédias climáticas de sua história. Precisa desesperadamente de investimentos privados, geração de empregos, aumento da arrecadação e crescimento econômico sustentável.

O Projeto Natureza representa exatamente essa oportunidade.

O estado precisa decidir se quer ser conhecido como um lugar que protege o meio ambiente e, ao mesmo tempo, sabe receber grandes investimentos, ou se continuará alimentando uma reputação de insegurança que afasta empreendedores e condena gerações futuras a assistir, mais uma vez, empregos e bilhões de reais cruzarem a divisa rumo a outros estados.

O Rio Grande do Sul não pode repetir o erro que cometeu no passado. Porque oportunidades dessa dimensão não aparecem todos os dias. E quando vão embora, nunca voltam.

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