Lula e o PT caminham para aprender de maneira amarga uma lição que repudiam desde que pisaram no Palácio do Planalto pela primeira vez. Trata-se de compreender que gasto público não é “vida”, como insistem em dizer, e que governos não podem se endividar ao infinito.
O petismo resistiu a aceitar esses fatos porque não foi penalizado pela esbórnia fiscal em eleições passadas.
Gasto público e juros altos
A gastança começou no segundo mandato de Lula (o primeiro foi disciplinado), mas sem produzir efeitos que machucassem imediatamente o bolso dos brasileiros. O presidente deixou o cargo com níveis recorde de aprovação.
Sua sucessora, Dilma Rousseff, jamais fingiu acreditar na necessidade de gerir a economia com prudência. Adotou desde o início uma política que unia programas assistencialistas, incentivo ao consumo, subsídios generosos para todo tipo de atividade e juros elevados. Contratou, dessa forma, uma crise colossal.
Mas a crise só explodiu depois de sua reeleição, em 2014. Mas, como veio casada com a Lava Jato, o grande espetáculo da corrupção impediu que a tragédia econômica ocupasse o centro do palco. Com isso, o PT não aprendeu nada, nem esqueceu nada, no plano da economia.
Ciclos eleitorais
O governo Lula 3 traz a mesma combinação de gastança com juros estratosféricos do governo Dilma 1. Quem quiser entender como é possível colher dividendos políticos dessa equação, dentro de um ciclo eleitoral, deve ler o artigo publicado nesta quinta, 26, pelos economistas Pedro Cavalcanti Ferreira e Renato Fragelli Cardoso.
Os autores mostram que esse tipo de política econômica pode beneficiar largas faixas do eleitorado de três maneiras: aumentando salários no setor de serviços (onde grande parcela dessa população está ocupada); contendo os preços da alimentação e de outros bens de consumo básico; e transferindo renda por meio de programas assistenciais, como Bolsa Família ou Gás Para Todos.
O problema é que essa equação não é sustentável por longos períodos de tempo. Acaba resultando em retração da economia, em recessão como a de 2015-2016, a maior da história brasileira.
Sem dúvida, Lula 3 esperava preparar o terreno para uma vitória nas urnas como a de Dilma 1. Desta vez, no entanto, as peças não se encaixaram adequadamente.
Juros e endividamento
A causa imediata está nos juros. Durante todo o governo, eles jamais foram inferiores a 10,5% – e se mantiveram em 15% por nada menos que nove meses. No primeiro mandato de Dilma, a média também foi alta, mas não tanto. Entre outubro de 2012 e junho de 2013, por exemplo, os juros foram de “apenas” 7,25%.
A resposta dos petistas é dizer que se os juros são altos, a culpa é do Banco Central. Nesta semana, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, foi pressionado e constrangido por Lula durante uma reunião.
Trata-se de uma falácia. O BC não consegue baixar os juros por causa do endividamento monstruoso do governo – e porque o Planalto não dá sinal nenhum de que pretende resolver esse problema. Em 2013, a dívida bruta do governo geral estava em 51% do PIB. Nos últimos três anos, saltou de 70% para 80% do PIB. A estimativa é que chegue a 82% no final de 2026.
Juros elevados por um período tão longo fizeram com que cerca de 80% das famílias brasileiras estejam não somente endividadas, mas passando por dificuldades para quitar os compromissos.
Nesta quinta, o BC divulgou seu Relatório de Política Monetária (RPM). Ele traz a seguinte constatação sobre 2025: “O comprometimento da renda com pagamentos de operações de crédito (…) alcançou nível recorde no quarto trimestre”.
A equação econômica do petismo não produziu bem estar desta vez. Os eleitores não se sentem confiantes em relação ao futuro. A seis meses da eleição, será difícil reverter essa situação. Há chances reais de que o presidente não renove o mandato, porque seu modelo de condução da economia, que nunca foi capaz de produzir desenvolvimento a longo prazo, desta vez falhou também no timing eleitoral. A culpa é toda de Lula, não do BC.




