A fragmentação das cadeias globais e a reconfiguração das alianças, impulsionadas por conflitos na Eurásia e instabilidades no Oriente Médio, colocaram a segurança energética e alimentar no topo da agenda de qualquer Estado que se pretenda soberano. Para o Brasil, o momento não é de hesitação, mas, sim, de muito pragmatismo.
Não somos apenas um país de dimensões continentais, com abundantes e diversificados recursos naturais e minerais; somos um player energético estratégico em um mundo sedento por segurança e confiabilidade. O desafio agora é converter esse potencial em influência real nos mercados que definem nossa balança comercial: a Ásia liderada pela China, a Europa em plena metamorfose verde e a América do Norte em busca de friendshoring.
O jogo se desenvolve num tabuleiro de oportunidades. Compete a nós movimentarmos as peças devidas nas direções adequadas, em observância aos interesses nacionais.
China, Europa e EUA
A China continua sendo nosso principal destino comercial, mas a relação precisa evoluir, por exemplo, da exportação bruta de minério de ferro, petróleo e soja para a parceria tecnológica em minerais críticos. O futuro da transição energética global passa pelo lítio, níquel, terras raras e afins. O Brasil possui as reservas; a Ásia, a escala. A oportunidade aqui é integrar o Brasil nas cadeias de valor de baterias e semicondutores, deixando de ser apenas o “celeiro” para ser um “hub” de processamento mineral.
Bruxelas busca desesperadamente alternativas ao gás russo e à dependência fóssil. O Brasil oferece a solução: hidrogênio verde e biocombustíveis. Mas atenção: a transição energética europeia não deve ser vista apenas sob a ótica da descarbonização, mas do desenvolvimento industrial mútuo. Nossa matriz elétrica, a mais limpa do mundo, é o passaporte para atrair indústrias eletrointensivas que fogem dos altos custos e da “sujeira” energética do Hemisfério Norte.
É nesse contexto que o conceito de friendshoring — a reconfiguração de cadeias de suprimentos prioritariamente entre países que compartilham valores políticos, econômicos e de segurança — emerge como vetor estratégico para a relação entre Brasil e Estados Unidos. Para os americanos, o friendshoring não é uma abstração acadêmica — é doutrina de Estado. Washington busca, por meio de instrumentos como o EXIM Bank e sua Supply Chain Resilience Initiative, financiar projetos de minerais críticos em países aliados que reduzam a dependência chinesa. O Brasil reúne as credenciais minerais, energéticas e institucionais para ser parceiro relevante dessa estratégia no Hemisfério Sul.
‘Friendshoring’
A base desse relacionamento, contudo, não pode ser a velha pauta de commodities. O friendshoring exige densidade industrial. Isso significa que a parceria Brasil-EUA precisa avançar da mera exportação de minérios brutos para a integração em cadeias de valor de baterias, semicondutores e ímãs permanentes — setores onde a China hoje domina o processamento global. O Brasil pode — e deve — ser o elo de confiança entre blocos geopolíticos concorrentes, ofertando a estabilidade institucional e a matriz energética mais limpa do mundo a parceiros que já não podem mais confiar na eficiência cega das cadeias globais desterritorializadas.
Leia a íntegra do artigo na edição 170 da revista V.




