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MUNDO

O tabuleiro geopolítico atual não aceita amadores

Brasil pode ser o elo de con­fiança entre blocos con­correntes, ofertando estabilidade institucional e a matriz energética mais limpa do mundo

Há 53 dias • por Bento Albuquerque
O tabuleiro geopolítico atual não aceita amadores
Contêineres no terminal Tecon Santos. Foto: Divulgação/Tecon Santos
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A fragmentação das cadeias globais e a reconfiguração das alianças, im­pulsionadas por conflitos na Eurásia e instabilidades no Oriente Médio, colocaram a segurança energética e alimentar no topo da agenda de qualquer Estado que se pretenda soberano. Para o Brasil, o momen­to não é de hesitação, mas, sim, de muito pragmatismo.

Não somos apenas um país de dimensões continentais, com abundantes e diversificados recur­sos naturais e minerais; somos um player energético estratégico em um mundo sedento por segurança e confiabilidade. O desafio agora é converter esse potencial em influên­cia real nos mercados que definem nossa balança comercial: a Ásia lide­rada pela China, a Europa em plena metamorfose verde e a América do Norte em busca de friendshoring.

O jogo se desenvolve num tabu­leiro de oportunidades. Compete a nós movimentarmos as peças devi­das nas direções adequadas, em ob­servância aos interesses nacionais.

China, Europa e EUA

A China continua sendo nosso principal destino comercial, mas a relação precisa evoluir, por exem­plo, da exportação bruta de miné­rio de ferro, petróleo e soja para a parceria tecnológica em minerais críticos. O futuro da transição ener­gética global passa pelo lítio, níquel, terras raras e afins. O Brasil possui as reservas; a Ásia, a escala. A opor­tunidade aqui é integrar o Brasil nas cadeias de valor de baterias e semi­condutores, deixando de ser apenas o “celeiro” para ser um “hub” de pro­cessamento mineral.

Bruxelas busca desesperadamente alternativas ao gás russo e à dependência fóssil. O Brasil oferece a solução: hidrogênio verde e bio­combustíveis. Mas atenção: a tran­sição energética europeia não deve ser vista apenas sob a ótica da des­carbonização, mas do desenvolvi­mento industrial mútuo. Nossa ma­triz elétrica, a mais limpa do mundo, é o passaporte para atrair indústrias eletrointensivas que fogem dos al­tos custos e da “sujeira” energética do Hemisfério Norte.

É nesse contexto que o conceito de friendshoring — a reconfiguração de cadeias de suprimentos priorita­riamente entre países que comparti­lham valores políticos, econômicos e de segurança — emerge como vetor estratégico para a relação entre Bra­sil e Estados Unidos. Para os ame­ricanos, o friendshoring não é uma abstração acadêmica — é doutrina de Estado. Washington busca, por meio de instrumentos como o EXIM Bank e sua Supply Chain Resilience Initiative, financiar projetos de mi­nerais críticos em países aliados que reduzam a dependência chinesa. O Brasil reúne as credenciais minerais, energéticas e institucionais para ser parceiro relevante dessa estratégia no Hemisfério Sul.

‘Friendshoring’

A base desse relacionamento, contudo, não pode ser a velha pau­ta de commodities. O friendshoring exige densidade industrial. Isso sig­nifica que a parceria Brasil-EUA pre­cisa avançar da mera exportação de minérios brutos para a integração em cadeias de valor de baterias, se­micondutores e ímãs permanentes — setores onde a China hoje domi­na o processamento global. O Brasil pode — e deve — ser o elo de con­fiança entre blocos geopolíticos con­correntes, ofertando a estabilidade institucional e a matriz energética mais limpa do mundo a parceiros que já não podem mais confiar na eficiência cega das cadeias globais desterritorializadas.

Leia a íntegra do artigo na edição 170 da revista V.

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