“Que tiro foi esse?” O refrão do funk da cantora Jojo Todynho é um meme usado para retratar situações inesperadas e avassaladoras. Nada mais apropriado, portanto, para retratar o surgimento avassalador do movimento feminista conservador liderado por Michelle Bolsonaro.
O país tomou conhecimento desse movimento de forma inesperada, em dia de jogo de Copa, por meio de um vídeo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgado nas redes sociais. Em resumo, ele exigia um tratamento respeitoso por parte do presidenciável Flávio Bolsonaro e peso nas decisões eleitorais do PL.
É difícil pensar em uma circunstância melhor para lançar uma plataforma feminista que não seja uma insurgência doméstica, nesse caso, da madrasta contra o enteado. O tiro que atingiu a principal candidatura da oposição veio de onde menos se esperava e produziu um abalo tão grande que o tema da mulher se tornou, por necessidade, o principal tema da pré-campanha.
Mas vídeo não foi a primeira rebelião liderada por Michelle. Quem acompanhou a eleição de Damares Alves para o Senado em 2022 sabe que sua candidatura nasceu de um ato de desobediência ocorrido na intimidade do Palácio da Alvorada.
Quebra de monopólio
Damares, que havia se filiado ao Republicanos para concorrer à eleição, foi desautorizada na véspera do pleito por Jair Bolsonaro que, por acordos políticos, deu apoio a Flávia Arruda. Resignada, a ex-ministra das Mulheres cogitou disputar uma vaga na Câmara, mas teve as portas fechadas pelo partido em razão de ela ameaçar o reduto dos seus deputados tradicionais.
Estimulada por Michelle, Damares desafiou a ordem e, com sinal verde do partido, decidiu entrar na disputa mesmo sem ser a “candidata oficial” de Bolsonaro. Fazendo campanha especialmente periferia e trabalhando temas como gravidez precoce e violência sexual, venceu a disputa com tranquilidade de forma incontestável.
Como todo movimento político, o feminismo da direita nasce da prática e tem o objetivo de quebrar o monopólio que a esquerda sempre teve sobre o tema. Sua chance aparente é explorar um flanco deixado pela incorporação de outros objetivos políticos e públicos às suas plataformas, diluindo os problemas da mulher comum.
Leia a reportagem na íntegra na edição 170 da revista V.




