Há cerca de uma década, empresas brasileiras começaram a instalar linhas de produção no Paraguai em busca de custos menores e um ambiente regulatório mais previsível. O movimento, inicialmente restrito a alguns segmentos industriais, ganhou escala e diversidade. Reportagem publicada pelo Valor Econômico nesta sexta, 10, mostra que novos grupos vêm estudando investimentos no país vizinho, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI), em relatório divulgado em 29 de junho, projeta crescimento de 4,4% para a economia paraguaia em 2026 e atribui esse desempenho à combinação de estabilidade macroeconômica, responsabilidade fiscal e continuidade das reformas.
O caso passou a frequentar os discursos de candidatos à Presidência da República, que o apresentam como evidência da necessidade de mudanças no ambiente de negócios brasileiro. Trata-se, sem dúvida, de uma trajetória econômica notável. A questão é compreender quais fatores explicam esse desempenho e quais lições efetivamente podem ser incorporadas ao debate sobre competitividade, produtividade e desenvolvimento durante a campanha eleitoral de 2026.
A tendência de migração empresarial ajuda a dar materialidade a essa discussão. Levantamentos mais recentes indicam que 254 empresas brasileiras operam sob o chamado “regime de maquila” — modelo voltado à produção para exportação, com tributação reduzida e incentivos à importação de insumos e máquinas –, o equivalente a cerca de 70% das 363 companhias instaladas nesse sistema.
Migração para o vizinho
O Valor mostra que, além de empresas que já anunciaram investimentos, como Lupo e Döhler, outros grupos avaliam instalar operações industriais no Paraguai. Entre eles estão Adere, Proeletronic e Bralyx. O jornal informa ainda que representantes de Cacau Show, Bauducco, Bom Sabor, Ajinomoto e Stepan Química participaram de encontros dedicados à apresentação de oportunidades no país vizinho.
O perfil das companhias interessadas também mudou. Durante os primeiros anos, a migração concentrou-se em empresas médias e em setores tradicionais, especialmente têxtil, calçadista e autopeças. Agora, consultorias especializadas registram o interesse de grupos maiores e de segmentos como alimentos, química, embalagens, eletrônicos e logística. Há ainda um fator adicional: a implementação da reforma tributária brasileira. Com o fim gradual de incentivos fiscais estaduais, algumas empresas começaram a rever suas estratégias de localização industrial e a considerar alternativas fora do país.
A leitura de relatórios do FMI e do Banco Mundial, combinada com os dados empresariais, indica que o avanço paraguaio não pode ser explicado apenas pela baixa tributação. O país preservou, ao longo de aproximadamente vinte anos, um conjunto de políticas macroeconômicas relativamente estáveis, consolidou regras fiscais, fortaleceu a autonomia do Banco Central e manteve um ambiente institucional previsível. Esse histórico contribuiu para a obtenção do grau de investimento e para a redução dos prêmios de risco.
Regime de maquila
Ao lado da estabilidade macroeconômica, o Paraguai estruturou instrumentos específicos para estimular a produção voltada à exportação. O mais conhecido é o regime de maquila. O nome deriva do espanhol medieval, quando indicava a parcela de grãos que o moleiro recebia como pagamento pela moagem. Hoje, designa a industrialização de produtos para terceiros, voltada à exportação. Empresas enquadradas nesse sistema pagam 1% sobre o valor agregado localmente, podem importar máquinas e matérias-primas sem incidência de tributos e, em determinadas situações, transferir lucros e dividendos sem tributação adicional. O desenho reduz custos administrativos e fiscais ao longo da cadeia produtiva e favorece operações integradas ao mercado regional.
Fora do regime especial, o chamado sistema “10-10-10” reforça a percepção de simplicidade tributária: 10% sobre o valor agregado, 10% sobre a renda das pessoas físicas e 10% sobre o lucro das empresas. A vantagem, porém, não decorre apenas das alíquotas. Ela também está associada à previsibilidade das regras, à menor complexidade do cumprimento tributário e à existência dos regimes específicos destinados à industrialização e às exportações.
Os custos trabalhistas entram na mesma equação. Embora o salário mínimo nominal no Paraguai possa superar o brasileiro, os encargos incidentes sobre a folha são menores. Estimativas citadas pelo Valor indicam que o custo total da mão de obra pode ficar perto de 30% abaixo do observado no Brasil. Outros levantamentos mostram que o custo adicional do empregador gira em torno de 16,5%, enquanto apenas FGTS e INSS representam cerca de 28% no Brasil. A jornada semanal paraguaia é de 48 horas, não há FGTS e diversos benefícios obrigatórios no mercado brasileiro não se aplicam da mesma forma.
Paraguai 2X
A energia elétrica barata e abundante completa o quadro. A produção hidrelétrica de Itaipu e Yacyretá oferece uma vantagem importante para atividades intensivas em energia e ajuda a atrair indústrias de transformação e projetos ligados à economia de baixo carbono. O país também procura aproveitar sua localização no centro da América do Sul e a integração logística com os mercados brasileiro e argentino.
O governo paraguaio pretende converter essas vantagens em um programa de desenvolvimento mais ambicioso. O plano Paraguai 2X estabelece como objetivo dobrar o tamanho da economia ao longo da próxima década, superar US$ 100 bilhões de PIB e ampliar a participação de produtos industrializados nas exportações. A estratégia prevê ganhos de produtividade em cadeias já consolidadas, agregação de valor a matérias-primas e abertura de novos setores. Atualmente, apenas 13 produtos concentram cerca de 80% das exportações do país, sinal de que a diversificação permanece como desafio central.
A expansão da indústria brasileira no Paraguai já tem efeitos mensuráveis. As dez maiores “maquiladoras” brasileiras registraram cerca de US$ 1,3 bilhão em exportações em 2025. As empresas de origem brasileira empregam aproximadamente 25 mil pessoas, e seis grupos investiram mais de US$ 182 milhões entre 2025 e 2026. Esses números ajudam a dimensionar um movimento que muitas vezes aparece no debate público apenas como comparação abstrata entre sistemas tributários.
Questões sociais persistem
É preciso registrar, contudo, que o desempenho econômico convive com problemas sociais persistentes. O FMI destaca a elevada informalidade, a necessidade de ampliar a arrecadação, fortalecer a gestão pública e desenvolver os mercados financeiros. Cerca de seis em cada dez trabalhadores estão na economia informal, o que limita o acesso à previdência e a outras formas de proteção social.
Os indicadores de infraestrutura social também mostram limitações. Apenas cerca de 59% da população dispõe de saneamento administrado de forma segura. Embora a pobreza tenha caído de mais de 50% para aproximadamente 16% em duas décadas, as desigualdades regionais e de renda permanecem significativas.
Esse contraste importa para o debate brasileiro. A experiência do Paraguai mostra que baixa tributação e regras simples podem estimular investimentos, mas também evidencia os limites de um Estado com baixa capacidade de arrecadação para financiar infraestrutura, saúde, educação e proteção social. A questão central não está em copiar um arranjo institucional distinto, e sim em identificar quais elementos podem melhorar a competitividade brasileira sem aprofundar vulnerabilidades sociais.
Teste de qualidade
O caso oferece um teste de qualidade do debate eleitoral. A discussão não deveria limitar-se à defesa genérica de menos impostos ou à condenação abstrata do “custo Brasil”. Há questões concretas a enfrentar: segurança jurídica, estabilidade regulatória, infraestrutura, financiamento de longo prazo, qualificação profissional, custo da energia, simplificação tributária e continuidade das políticas públicas.
O Brasil dispõe de um mercado maior, uma base industrial mais complexa, instituições financeiras desenvolvidas e capacidade tecnológica superior. Ainda assim, perde competitividade quando muda regras com frequência, mantém custos administrativos elevados e falha em oferecer horizonte seguro ao investimento produtivo.
O movimento das empresas brasileiras em direção ao Paraguai não deve ser tratado como slogan eleitoral nem como prova automática de superioridade de um modelo. É um alerta sobre a intensidade da competição regional por capital, fábricas e empregos. Candidatos e eleitores deveriam perguntar quais reformas podem tornar o Brasil mais previsível, produtivo e competitivo sem sacrificar a capacidade do Estado de fornecer serviços essenciais.




