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ECONOMIA

O El Niño voltou e ameaça o prato de arroz com feijão

Há 53 dias • por Valter Hugo Miro
O El Niño voltou e ameaça o prato de arroz com feijão
Foto: ChatGPT Image
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4:27

Em junho de 2026, o El Niño deixou de ser previsão para se tornar even­to em curso e voltou a colocar o cli­ma no centro das projeções agríco­las. A agência norte-americana NOAA confirmou a presença do fe­nômeno e projeta que ele deve se intensificar até o início de 2027. No Brasil, uma nota técnica conjunta de INPE, INMET, FUNCEME e CENSIPAM já havia sinalizado, ainda em abril, probabilidade superior a 80% de sua ocorrência, além de alertar para o risco de eventos climáticos extre­mos em diferentes regiões do país.

O El Niño é a fase quente de um ciclo natural do Oceano Pacífico que altera ventos, temperatura e chuvas em várias partes do planeta. No Bra­sil, seus efeitos variam conforme a região e a época do ano: em geral, há mais chuva no Sul e menos no Norte e no Nordeste. Como boa par­te das lavouras brasileiras é de se­queiro (ou seja, depende diretamen­te da chuva), essas diferenças pesam sobre a produção de alimentos. Es­tiagens comprometem a formação dos grãos; chuvas em excesso atra­sam plantio e colheita.

Distribuição do risco

A questão central é que o risco não se distribui de maneira unifor­me no território. Com o auxílio de um modelo estatístico, analisamos a produtividade de soja, milho, arroz e feijão em centenas de microrregiões brasileiras entre 1990 e 2024, com­parando como cada parte do país responde a um mesmo episódio do fenômeno. O resultado é claro: as perdas ligadas ao El Niño se concentram sobre o arroz e o feijão cultiva­dos no Norte e no Nordeste, justa­mente as culturas mais associadas à segurança alimentar e mais depen­dentes da chuva.

Os números dão a dimensão do problema. Em anos de El Niño, o rendimento do arroz cai cerca de 11% no Nordeste e 4% no Norte; o do feijão recua cerca de 6% nas duas regiões. Já a soja e o milho não mos­tram perdas claras associadas ao fenômeno. Um ponto pode parecer contraintuitivo: quando essas duas culturas vão mal, o culpado costuma ser a La Niña — a fase oposta, de resfriamento do Pacífico — e não o El Niño. De fato, em anos de La Niña, a soja e o milho chegam a ganhar mais de 12% de produtividade no Nordeste, provavelmente por conta das melhores condições de chuva. A explicação está no perfil das lavou­ras: o arroz e o feijão nordestinos são majoritariamente de sequeiro e sensíveis à seca, enquanto a soja da região se concentra em áreas mais tecnificadas. No Sul, o quadro se in­verte, e é a La Niña que tende a pre­judicar o milho, ao trazer estiagem à região.

Implicações práticas

O fenômeno importa, portanto, mas não da forma que muitas vezes se imagina. O risco climático do El Niño aparece menos concentrado nas grandes lavouras de soja do Centro-Oeste e do Sul e mais con­centrado nas culturas alimentares do Norte e do Nordeste.

Esse padrão tem implicações prá­ticas. Ajuda a orientar a precificação de seguros agrícolas, o planejamen­to de estoques e a gestão de preços regionais. Instrumentos de proteção como o seguro rural e o Garantia-Sa­fra podem ganhar eficácia se priori­zarem as culturas e os territórios onde a exposição ao El Niño se mos­tra mais consistente. Diante de um evento que deve se estender até 2027, saber onde o risco realmente se concentra é o primeiro passo para enfrentá-lo.

Vitor Hugo Miro é pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre FGV) e professor do Departamento de Econo­mia Agrícola da Universidade Federal do Ceará (UFC).

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