Em junho de 2026, o El Niño deixou de ser previsão para se tornar evento em curso e voltou a colocar o clima no centro das projeções agrícolas. A agência norte-americana NOAA confirmou a presença do fenômeno e projeta que ele deve se intensificar até o início de 2027. No Brasil, uma nota técnica conjunta de INPE, INMET, FUNCEME e CENSIPAM já havia sinalizado, ainda em abril, probabilidade superior a 80% de sua ocorrência, além de alertar para o risco de eventos climáticos extremos em diferentes regiões do país.
O El Niño é a fase quente de um ciclo natural do Oceano Pacífico que altera ventos, temperatura e chuvas em várias partes do planeta. No Brasil, seus efeitos variam conforme a região e a época do ano: em geral, há mais chuva no Sul e menos no Norte e no Nordeste. Como boa parte das lavouras brasileiras é de sequeiro (ou seja, depende diretamente da chuva), essas diferenças pesam sobre a produção de alimentos. Estiagens comprometem a formação dos grãos; chuvas em excesso atrasam plantio e colheita.
Distribuição do risco
A questão central é que o risco não se distribui de maneira uniforme no território. Com o auxílio de um modelo estatístico, analisamos a produtividade de soja, milho, arroz e feijão em centenas de microrregiões brasileiras entre 1990 e 2024, comparando como cada parte do país responde a um mesmo episódio do fenômeno. O resultado é claro: as perdas ligadas ao El Niño se concentram sobre o arroz e o feijão cultivados no Norte e no Nordeste, justamente as culturas mais associadas à segurança alimentar e mais dependentes da chuva.
Os números dão a dimensão do problema. Em anos de El Niño, o rendimento do arroz cai cerca de 11% no Nordeste e 4% no Norte; o do feijão recua cerca de 6% nas duas regiões. Já a soja e o milho não mostram perdas claras associadas ao fenômeno. Um ponto pode parecer contraintuitivo: quando essas duas culturas vão mal, o culpado costuma ser a La Niña — a fase oposta, de resfriamento do Pacífico — e não o El Niño. De fato, em anos de La Niña, a soja e o milho chegam a ganhar mais de 12% de produtividade no Nordeste, provavelmente por conta das melhores condições de chuva. A explicação está no perfil das lavouras: o arroz e o feijão nordestinos são majoritariamente de sequeiro e sensíveis à seca, enquanto a soja da região se concentra em áreas mais tecnificadas. No Sul, o quadro se inverte, e é a La Niña que tende a prejudicar o milho, ao trazer estiagem à região.
Implicações práticas
O fenômeno importa, portanto, mas não da forma que muitas vezes se imagina. O risco climático do El Niño aparece menos concentrado nas grandes lavouras de soja do Centro-Oeste e do Sul e mais concentrado nas culturas alimentares do Norte e do Nordeste.
Esse padrão tem implicações práticas. Ajuda a orientar a precificação de seguros agrícolas, o planejamento de estoques e a gestão de preços regionais. Instrumentos de proteção como o seguro rural e o Garantia-Safra podem ganhar eficácia se priorizarem as culturas e os territórios onde a exposição ao El Niño se mostra mais consistente. Diante de um evento que deve se estender até 2027, saber onde o risco realmente se concentra é o primeiro passo para enfrentá-lo.
Vitor Hugo Miro é pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre FGV) e professor do Departamento de Economia Agrícola da Universidade Federal do Ceará (UFC).




