Apresentada como uma resposta moderna às demandas por mais qualidade de vida no trabalho, a PEC 8/2025, que propõe o fim da escala 6×1, está em tramitação no Congresso Nacional, com análise em subcomissões da Câmara dos Deputados e expectativa de votação ainda no primeiro semestre de 2026. O governo federal tem destacado o fim da escala 6×1 como uma das prioridades legislativas para 2026, e há esforço político para unificar diferentes propostas em debate tanto na Câmara quanto no Senado. Além disso, há negociações entre lideranças partidárias para que a matéria avance, especialmente após aprovação, na Comissão de Constituição e Justiça, de uma versão no Senado e na subcomissão da Câmara.
Mas, fora da retórica, especialistas e representantes de setores-chave da economia alertam: a medida pode gerar efeitos opostos aos prometidos, com impacto direto sobre empregos, preços e competitividade. Em um país marcado por baixa produtividade, elevada informalidade e alto custo de contratação, a imposição legal de uma redução da jornada, sem contrapartidas estruturais, tende a funcionar como um choque negativo de oferta, e não como um ganho social sustentável.
O risco para o emprego formal
Do ponto de vista econômico, o principal efeito da extinção compulsória da escala 6×1 é o aumento do custo do trabalho por hora, sem que haja, automaticamente, ganho de produtividade. Segundo o economista Izak Carlos da Silva, economista-chefe do BDMG e especialista do Instituto Millenium, esse tipo de intervenção tende a reduzir o emprego formal, sobretudo nos setores mais intensivos em mão de obra.
“A empresa reage racionalmente: informaliza, terceiriza, automatiza ou simplesmente deixa de contratar”, explica. Comércio, serviços pessoais e alimentação — exatamente os segmentos que mais empregam trabalhadores de baixa qualificação — seriam os mais afetados. O resultado provável não é mais empregos, mas menos vagas formais e maior precarização.
A ideia de que uma escala 4×3 obrigatória criaria postos adicionais também é vista como um equívoco econômico. “Esse raciocínio parte de um erro comum: assumir que necessidade operacional gera, por si só, novos empregos. Na prática, as empresas decidem contratar com base em custo, produtividade e viabilidade econômica, não apenas para preencher dias no calendário”, explica.
Izak lembra ainda que as empresas contratam para gerar valor econômico. “Se a contratação adicional não se paga, ela não ocorre”. Segundo ele, em setores de baixa margem, a resposta tende a ser redução de horários, fechamento de unidades ou até saída do mercado. Por isso, a redução compulsória da jornada não garante mais empregos; ela apenas muda os incentivos.
Preços mais altos e impacto regressivo
Outro ponto sensível da proposta é o impacto inflacionário. Serviços e alimentos são setores altamente dependentes de trabalho humano e com baixa margem de absorção de custos. Quando a jornada é reduzida por lei, o repasse aos preços se torna, em muitos casos, inevitável.
“É uma medida com viés regressivo”, afirma Izak. A inflação de serviços e alimentos afeta desproporcionalmente as famílias de baixa renda, cuja cesta de consumo é mais concentrada nesses itens. Ou seja, a política anunciada como proteção ao trabalhador pode acabar corroendo seu poder de compra.
Menos flexibilidade
No varejo supermercadista, o impacto da proposta é direto. Lojas funcionam praticamente todos os dias do ano, e dependem de escalas contínuas para manter operações como caixa, reposição, açougue, padaria e limpeza.
Segundo o consultor de varejo Osmar Francisco de Oliveira, o fim da escala 6×1 exigiria mais funcionários para cobrir a mesma jornada, mas isso não significa mais contratações. Redes maiores até podem absorver parte do impacto com reorganização de turnos e ajustes pontuais. Já os pequenos supermercados, que operam com margens mínimas, tendem a reduzir horários, terceirizar serviços, ou até fechar.
“O aumento do custo com pessoal, em algum momento, chega ao caixa do supermercado”, afirma. “O risco adicional é o aumento da concentração do setor, já que pequenos negócios têm menos capacidade de adaptação do que grandes redes”, alerta Oliveira.
Energia: risco à competitividade
Em setores essenciais, como geração de energia, a rigidez da proposta se torna ainda mais problemática. Serviços de campo em usinas termoelétricas e hidrelétricas operam de forma contínua, muitas vezes em escalas 6×1 ou superiores, justamente para reduzir o tempo de parada e garantir o funcionamento do sistema elétrico.
H.M., diretor de uma multinacional do setor, alerta que restringir essas operações a escalas mais curtas elevará prazos, custos e, inevitavelmente, o preço da energia. “Esse aumento será pago pelo consumidor final”, afirma.
Além disso, a escassez de mão de obra qualificada tende a se agravar. Com menor atratividade financeira, trabalhadores especializados podem migrar para projetos no exterior, já que muitos veem vantagem neste tipo de escala, por aumentar seus ganhos financeiros. Enquanto isso, empresas recorrem ainda mais à terceirização e à contratação de estrangeiros, não regidos pela CLT brasileira. O resultado é perda de competitividade e fuga de capital humano.
O contraste com a Europa
Defensores da proposta frequentemente citam países como França, Alemanha e Holanda. O problema é que esses países reduziram jornadas após décadas de ganhos de produtividade, com mercados de trabalho altamente formalizados, capital humano qualificado e baixo custo de contratação.
“Quando reformas desse tipo foram adotadas, França, Alemanha e Holanda já apresentavam níveis de renda per capita ao menos duas vezes superiores aos do Brasil, além de uma produtividade do trabalho significativamente mais elevada”, destaca o economista Izak Carlos. “Além disso, os custos de contratação nesses países eram estruturalmente menores, sobretudo quando considerados os encargos indiretos e a insegurança jurídica, permitindo ajustes mais suaves nas relações de trabalho”, completa.
No Brasil, o cenário é inverso: produtividade estagnada, informalidade elevada, insegurança jurídica e crédito caro. Importar esse modelo por decreto, sem resolver os entraves estruturais, tende a gerar informalização, inflação e desemprego, não bem-estar.
Flexibilidade em vez de imposição
Especialistas convergem em um ponto: melhorar a qualidade de vida do trabalhador é um objetivo legítimo. O erro está no instrumento. Negociação coletiva, flexibilização contratual, banco de horas e políticas voltadas à qualificação e à produtividade são caminhos mais eficientes e sustentáveis do que uma regra única imposta a realidades produtivas tão distintas.
Ao tentar padronizar o mercado de trabalho brasileiro na canetada, a PEC 8/2025 corre o risco de produzir exatamente o oposto do que promete: menos empregos formais, preços mais altos e mais desigualdade. Em vez de modernizar, pode cristalizar os problemas que o país insiste em ignorar.
*Artigo publicado originalmente na edição 166 (março de 2026) da revista V




