A posse de Keiko Fujimori na Presidência do Peru, na tarde desta terça-feira, 28, pode encerrar um longo período de instabilidade política no país vizinho. As principais promessas da nova presidente, a nona em uma década, são restaurar a segurança pública e devolver previsibilidade institucional ao país. Mas sua chegada ao poder também coincide com um momento particularmente favorável para a integração econômica sul-americana. O Peru é uma porta aberta para o Pacífico, em um cenário de reorganização das cadeias globais de comércio e de crescente importância da Ásia como mercado consumidor. Empresas brasileiras podem ter no país um parceiro estratégico tanto para investimentos quanto para a expansão de suas exportações.
Mensagem econômica
Ainda antes da posse, Keiko escolheu para o Ministério da Economia o economista Elmer Cuba, ex-diretor do Banco Central peruano e defensor da manutenção do modelo macroeconômico liberal que transformou o Peru em uma das economias mais estáveis da América Latina nas últimas décadas.
O programa apresentado durante a campanha prevê atrair entre 5 bilhões e 7 bilhões de dólares por ano em novos investimentos privados, criar 500 mil empregos, simplificar mais de 500 procedimentos burocráticos e acelerar projetos de infraestrutura e mineração. A mensagem enviada aos investidores é de continuidade institucional, disciplina fiscal e maior abertura ao capital privado.
Obstáculos internos
Transformar essas promessas em realidade, porém, será uma tarefa muito mais complexa do que anunciá-las. O Peru preserva fundamentos econômicos sólidos, mas chega ao novo governo após uma década marcada por sucessivas crises políticas e deterioração da segurança pública.
A vitória apertada de Keiko sobre o esquerdista Alberto Sánchez, somada aos desafios para destravar grandes investimentos em mineração e infraestrutura, exige habilidade política para reconstruir a confiança do setor privado e acelerar projetos que permanecem há anos paralisados. Além disso, o governo precisará enfrentar problemas como o avanço do crime organizado e preparar o país para possíveis impactos de um novo ciclo do fenômeno El Niño.
Geopolítica
No plano internacional, o desafio é igualmente delicado. O Peru ocupa hoje uma posição singular na disputa de influência entre Estados Unidos e China na América do Sul. A China consolidou-se como principal parceiro comercial do país e financiou o Porto de Chancay, empreendimento que deverá reduzir significativamente o tempo de transporte entre a costa oeste sul-americana e a Ásia. Ao mesmo tempo, Keiko já indicou que pretende estreitar a cooperação política e de segurança com Washington. Manter esse equilíbrio entre as duas potências será uma das tarefas centrais de sua política externa.
O desenvolvimento dos corredores bioceânicos transforma o Peru em elo estratégico entre o interior do continente e o mercado asiático. O Porto de Chancay, conectado futuramente por rodovias e ferrovias ao território brasileiro, será peça importante de uma nova infraestrutura logística regional. A perspectiva é especialmente valiosa para estados do Centro-Oeste, Norte e Sudeste, que poderão utilizar a costa do Pacífico como alternativa para reduzir custos e ampliar sua presença nos mercados asiáticos.
Comércio bilateral
Já existem movimentos significativos de aproximação entre Brasil e Peru. O comércio bilateral aproxima-se de 5 bilhões de dólares anuais, mantendo superávit histórico para o Brasil. Em 2024, as exportações brasileiras ao Peru somaram 2,9 bilhões, colocando o país como o terceiro maior fornecedor do mercado peruano. Veículos, derivados de petróleo, produtos siderúrgicos, papel e celulose lideram a pauta exportadora, enquanto o relacionamento bilateral também se fortalece por meio de acordos sanitários, cooperação fronteiriça, integração logística e projetos conjuntos nas áreas de infraestrutura e segurança.
As perspectivas para empresas brasileiras são ainda mais amplas. Um estudo da ApexBrasil, divulgado em agosto de 2025, identificou mais de 1.400 oportunidades comerciais no mercado peruano, espalhadas por setores como máquinas e equipamentos, veículos, produtos químicos, medicamentos, aço, pneus, alimentos e bens manufaturados. Paralelamente, a agência peruana ProInversión apresentou recentemente um portfólio superior a 40 bilhões de dólares em projetos de infraestrutura, envolvendo logística, rodovias, telecomunicações, energia e saúde, áreas nas quais empresas brasileiras acumulam experiência e competitividade.
Se Keiko Fujimori conseguir restabelecer a estabilidade institucional e criar um ambiente mais favorável aos investimentos, seu governo poderá acelerar um processo de integração econômica que já vinha ganhando força antes da mudança de poder.




