Na década de 1990, Alberto Fujimori desmontou o sistema político peruano e exerceu, por oito anos, um governo autoritário. Embora ele tenha deixado o poder no ano 2000 – escapou para o Japão em meio a um escândalo de corrupção e violação de direitos humanos e mandou sua renúncia por fax – o Peru jamais recobrou plenamente a tranquilidade institucional. Tornou-se conhecido como o país que teve 11 presidentes em 25 anos, devido à corrupção endêmica, uma estrutura partidária caótica e uma legislação que facilita a realização de impeachments. Neste momento, contudo, o mundo se pergunta: poderia ser Keiko, a filha de Fujimori, a figura responsável por devolver o Peru à normalidade?
As eleições presidenciais de 2026 trazem essa possibilidade. No segundo turno realizado no início de junho, Keiko Fujimori enfrentou o deputado esquerdista Roberto Sánchez, aliado do ex-presidente Pedro Castillo. A apuração é vagarosa e a disputa acontece, literalmente, voto a voto. Segundo os números oficiais, na noite desta quinta-feira, 11, com 98,2% das urnas apuradas, Keiko tinha 50,002% e Sánchez, 49,998% dos votos. Mas a situação do início da semana se inverteu. A candidata conservadora foi encurtando a desvantagem em que estava, passou à frente na noite de quarta e desde então vem mantendo sua margem positiva – ainda que ínfima.
Primeira-dama do pai
Keiko estreou na política aos 19 anos e de maneira incomum: como primeira-dama… do próprio pai. Eleito presidente em 1990, Alberto Fujimori passou por um divórcio conturbado em 1994 e depois disso convidou a filha mais velha para acompanhá-lo nos compromissos oficiais, exercendo um papel institucional. A experiência transformou a jovem numa verdadeira insider da política peruana. Mesmo depois da queda do pai, ela permaneceu ativa na vida pública, construiu seu próprio partido, a Fuerza Popular, e se tornou uma presença constante nas disputas nacionais. Concorreu à Presidência três vezes, chegou ao segundo turno em todas elas e acumulou derrotas. Agora, na quarta disputa, pode estar à beira da vitória.
Olhar o Peru pelos olhos de Mario Vargas Llosa ajuda a entender por que Keiko pode representar uma expectativa de normalização. O Nobel de Literatura disputou a Presidência contra Alberto Fujimori em 1990, apresentando-se como defensor de causas liberais diante de um adversário que ele apresentava como sendo populista e antidemocrático. Llosa foi derrotado e suas piores previsões se confirmaram em 1992, quando Fujimori deu um autogolpe e consolidou um regime autoritário. Durante os anso seguintes, o escritor combateu o fujimorismo e sua principal herdeira política, Keiko. Até 2021, quando decidiu apoiá-la no segundo turno como um “mal menor”, diante da candidatura de Pedro Castillo.
Esquerda e direita
Castillo venceu e, mais uma vez, os temores de Vargas Llosa acabaram se confirmando. Professor rural de orientação marxista e discurso antissistema, o recém-eleito defendia intervenção estatal na economia, aproximação com governos da esquerda radical latino-americana e uma ampla reforma constitucional. Rapidamente, entrou em conflito com o Congresso e, em dezembro de 2022, tentou dissolvê-lo e governar por decreto, o que levou à sua destituição, prisão e posterior condenação. Dina Boluarte assumiu a Presidência, enfrentou protestos violentos e forte desgaste político e encerrou seu mandato no final de 2025. Antes das eleições de junho, o Peru ainda experimentou não um, mas dois brevíssimos governos interinos.
Keiko concorre com uma plataforma centrada na estabilidade econômica e no combate à criminalidade, tema que se tornou prioridade para os eleitores diante da escalada da violência urbana. Prometeu preservar as bases do modelo econômico que permitiu ao Peru manter crescimento mesmo durante anos de turbulência institucional, ao mesmo tempo em que defende uma resposta mais dura contra organizações criminosas.
Experiência acumulada
Se a vitória se confirmar, Keiko chegará ao governo depois de mais de duas décadas acumulando experiência política, enfrentando derrotas eleitorais, crises partidárias e investigações judiciais. Também encontrará um ambiente institucional diferente daquele que marcou grande parte da história recente do país. Reformas aprovadas em 2024 reduziram a fragmentação partidária e restabeleceram o Senado depois de uma longa e turbulenta experiência com o unicameralismo.
Com um quarto de século marcado por presidentes derrubados, governos provisórios e conflitos permanentes entre Executivo e Legislativo, o Peru está exausto da instabilidade. Não é prudente fazer pouco das duas “tradições” que o país cultivou: corrupção e tentação autoritária. Mas, nesse contexto, a hoje experiente Keiko Fujimori pode ser, sim, uma aposta de normalização em vez de ruptura.




