O governo Donald Trump não precisou negociar um acordo comercial com o Brasil nem aguardar uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais deste ano para garantir acesso privilegiado às terras raras brasileiras. Esse movimento veio por meio do setor privado, com forte apoio estatal. A americana USA Rare Earth — respaldada por investimentos da Casa Branca e alinhada às prioridades estratégicas de Washington — anunciou a compra da mineradora Serra Verde, em uma transação avaliada em US$ 2,8 bilhões (cerca de R$ 13,8 bilhões). A conclusão do negócio está prevista para o terceiro trimestre de 2026
Posição singular
A Serra Verde ocupa uma posição singular. Embora o Brasil seja dono das segundas maiores reservas de terras raras no planeta , a mineradora é a única desse setor em operação no país. Esses minerais são essenciais para tecnologias estratégicas — como veículos elétricos, energia renovável e sistemas de defesa — e têm sua cadeia global fortemente concentrada na China, que domina extração e, sobretudo, refino. O ativo brasileiro ganha relevância geopolítica ao se tornar peça-chave nos esforços dos EUA para reduzir a dependência da China.
Investimento do governo Trump
A trajetória recente da USA Rare Earth ajuda a explicar o movimento. Criada como uma startup voltada à mineração e à fabricação de ímãs, a empresa passou a se expandir rapidamente com apoio direto do governo americano. Em janeiro, a companhia recebeu um aporte de US$ 1,6 bilhão por meio do Departamento de Comércio, garantindo ao governo participação relevante no capital. Abriu-se, além disso, o acesso a financiamentos federais. A estratégia inclui a construção de uma cadeia integrada — com mina no Texas, planta industrial em Oklahoma e aquisições na Europa, além da compra da Serra Verde — para consolidar um fornecedor ocidental competitivo dos minerais. “Vamos nos tornar um grande fornecedor para todos os outros players da indústria, ajudando todo o setor a ganhar escala”, afirmou a CEO Barbara Humpton em entrevista à revista Fortune.
Expansão
A aquisição também abre novas expectativas para a expansão da Serra Verde. O acordo prevê contratos de fornecimento com preços mínimos para elementos como disprósio e térbio. Isso tende a dar previsibilidade a receitas e reduzir riscos, criando condições para novos investimentos e eventual ampliação da capacidade produtiva. A meta inicial é alcançar cerca de 6.400 toneladas de óxidos de terras raras até 2027, com possibilidade de dobrar esse volume no futuro, consolidando a operação como um dos principais polos de produção fora da Ásia.
Entrevista à V
Em março, o presidente e chefe de operações da Serra Verde falou com exclusividade a revista V sobre o histórico da companhia. Leia abaixo um trecho da entrevista, cuja íntegra pode ser encontrada aqui.
Como foi o processo de prospecção das jazidas da Serra Verde?
O desenvolvimento da Serra Verde teve início com um programa de exploração longo e estruturado, iniciado em 2010. Naquele momento, a companhia obteve licenças de exploração da Agência Nacional de Mineração (ANM) em diversas áreas de Goiás e Tocantins, com o objetivo de avaliar o potencial geológico da região. Em seguida, foi conduzido um esforço sistemático de exploração, incluindo levantamentos geofísicos aerotransportados, mapeamento geológico, amostragem de superfície e sucessivas campanhas de perfuração. A partir de aproximadamente 2012, os trabalhos passaram a se concentrar progressivamente na área de Pela Ema, onde foi confirmada a presença de um depósito de terras raras do tipo argila iônica. O que distinguiu o projeto desde as fases iniciais foi sua natureza geológica. Depósitos de argila iônica são rasos e fundamentalmente diferentes dos depósitos de terras raras em rocha dura, o que viabilizou uma abordagem de mineração e processamento de menor impacto. Em resumo, o desenvolvimento da Serra Verde reflete mais de 15 anos de exploração disciplinada, validação técnica e processos de licenciamento, culminando na entrada em operação da primeira mina brasileira de terras raras do tipo argila iônica em escala industrial.
Qual o principal desafio que precisou ser superado para que a mineração engrenasse?
Foi transformar um projeto de exploração em uma operação sustentável, comercialmente viável e em larga escala. Depósitos de terras raras do tipo argila iônica nunca haviam sido desenvolvidos em escala industrial fora da Ásia, de modo que não existia um modelo estabelecido para a mineração, o processamento e a operação desse tipo de projeto no Brasil. Diante disso, a Serra Verde precisou investir um tempo significativo em validação técnica, testes-piloto e desenvolvimento do fluxograma de processo (flowsheet), enquanto, em paralelo, avançava nos processos de licenciamento ambiental e minerário no Brasil e construía as capacidades organizacionais e operacionais necessárias para a transição da exploração para a produção. À medida que a operação evoluiu, o foco passou a ser a otimização: aumentar a eficiência, acelerar a produção, aprimorar a qualidade do produto e reduzir custos, assegurando a sustentabilidade e a competitividade de longo prazo da operação.
Quais são as metas da Serra Verde para 2026? E onde a empresa deseja estar em 2030?
A produção comercial da Serra Verde teve início em 2024 e a operação segue em fase de ramp-up, com um programa de otimização em andamento, com previsão de conclusão em 2026. À medida que esse trabalho avança, a meta é produzir entre 4,8 mil e 6,5 mil toneladas por ano de óxidos de terras raras, ao mesmo tempo em que a companhia continua aprimorando a qualidade do produto, a eficiência operacional e a competitividade de custos. Olhando para o fim da década, o objetivo da Serra Verde é consolidar sua posição como a principal produtora em larga escala de terras raras pesadas fora da Ásia. Isso inclui avaliar oportunidades seletivas de crescimento, como uma possível expansão da fase 2, que pode dobrar o volume de minério extraído.




