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ECONOMIA

EUA anunciam tarifaço e culpam Lula, mas há espaço para negociação

Sobretaxa deve atingir cerca de 40% das exportações brasileiras; Marco Rubio diz que Lula pôs "ego à frente" e que Brasil negociou de má-fé

Há 71 dias • por Carlos Graieb
EUA anunciam tarifaço e culpam Lula, mas há espaço para negociação
O Secretário de Estado americano Marco Rubio. Foto: Freddie Everett/USA State Department
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Os Estados Unidos confirmaram nesta quarta-feira a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre parte das importações brasileiras, em mais um capítulo da escalada comercial iniciada pela investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). A medida entra em vigor em 22 de julho, mas veio acompanhada de uma lista ampliada de exceções, que preserva produtos considerados estratégicos para a economia americana, como café, carne bovina, partes de aeronaves, ferro-gusa e diversos insumos industriais e farmacêuticos. Com isso, o impacto ficou menor do que o inicialmente previsto: cerca de 40% das exportações brasileiras para os Estados Unidos permanecem sujeitas à sobretaxa, enquanto o restante ficou protegido pelas isenções.

A decisão confirma que Washington procurou equilibrar dois objetivos. De um lado, aumentar a pressão sobre Brasília por meio de uma tarifa expressiva. De outro, evitar que a própria indústria americana fosse penalizada pela taxação de produtos difíceis de substituir ou essenciais para suas cadeias produtivas. Nas audiências públicas em Washington, que antecederam o anúncio desta quarta, tanto empresários americanos quanto brasileiros chamaram atenção da Casa Branca para os possíveis impactos negativos do tarifaço na economia dos Estados Unidos.

Rubio: Lula pôs ego à frente

O anúncio do USTR apresentou argumentos comerciais, mas a Casa Branca deixou claro que a medida também teve uma dimensão política.

Em publicação nas redes sociais, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que “não deve haver confusão” sobre a origem da tarifa. Segundo ele, o governo Lula “não negociou de boa-fé” com Washington, suas políticas econômicas seriam prejudiciais tanto aos americanos quanto aos brasileiros e o presidente brasileiro teria colocado “seu ego” acima do bem-estar da população.

A manifestação é significativa porque parte do principal responsável pela diplomacia americana, e não do órgão técnico encarregado da investigação comercial.

O discurso teve repercussão imediata nas redes sociais do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência. O parlamentar compartilhou a publicação de Rubio e chamou Lula de “Biden brasileiro”, afirmando que o presidente estaria “ranzinza, inconsequente” e teria se tornado “um perigo para a nossa nação”.

Espaço de manobra

Apesar do endurecimento da retórica, o próprio governo americano deixou claro que a tarifa não representa o ponto final da disputa.

Na resolução que oficializa a medida, Washington afirma que a sobretaxa poderá ser revista caso o Brasil adote medidas que reduzam os obstáculos identificados pelos Estados Unidos. Em sentido oposto, adverte que novas restrições poderão ser consideradas caso Brasília responda elevando barreiras ao comércio americano. Em outras palavras, a tarifa passa a funcionar também como instrumento de negociação.

A referência dialoga diretamente com a posição anunciada pelo governo brasileiro nos últimos dias. Após o tarifaço, o Planalto informou que iniciará os procedimentos previstos na chamada Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada em 2025. A norma autoriza o Brasil, em determinadas circunstâncias, a adotar contramedidas contra ações unilaterais de outros países que prejudiquem a competitividade nacional ou interfiram em decisões soberanas.

Reciprocidade, uma má ideia

Entre os instrumentos disponíveis estão a elevação de tarifas, restrições às importações, suspensão de concessões comerciais e outras medidas proporcionais ao dano econômico sofrido. Antes de qualquer retaliação, porém, a legislação prevê tentativa de negociação e observância dos mecanismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio.

Do ponto de vista econômico, há argumentos relevantes para tratar a reciprocidade com cautela. Uma resposta tarifária pode ter valor político para Lula, ecoando seu discurso de defesa à soberania nacional. Mas também tende a elevar custos para empresas brasileiras que dependem de máquinas, equipamentos e insumos importados dos Estados Unidos, além de aumentar o risco de uma escalada comercial.

Como o mercado americano representa parcela muito maior das oportunidades para exportadores brasileiros do que o mercado brasileiro para exportadores americanos, preservar espaço para negociação é uma estratégia mais alerta aos interesses comerciais do país do que aprofundar o conflito por meio de novas barreiras.

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