O acontecimento mais surpreendente da política brasileira em tempos recentes foi a união de três possíveis candidatos à presidência em um mesmo partido, o PSD. Ratinho Jr., governador do Paraná, já pertencia à legenda. As novidades foram a migração de Eduardo Leite, governador gaúcho, e Ronaldo Caiado, governador de Goiás, para a legenda. Todos têm credenciais e legitimidade para pleitear a titularidade na corrida eleitoral, mas afirmam que estão juntos em nome de um projeto que sirva de alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo. Também garantem que, no momento que uma decisão for tomada, o escolhido contará com o apoio dos outros dois.
Eduardo Leite, 40 anos, se apresenta para esse jogo depois de pôr em ordem as contas de um estado que estava quebrado. Ao longo de seus dois mandatos, enfrentou a pandemia de covid-19 e as inundações calamitosas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Nesta entrevista, ele explica por que acredita ser o nome certo nas circunstâncias atuais. “Eu me forjei politicamente na dificuldade”, diz ele. “E esta eleição não será fácil, assim como serão muito duros os desafios de quem chegar ao Planalto.”
Leia um trecho da entrevista exclusiva concedida a V:
A união de três presidenciáveis de gerações e trajetórias muito diferentes criou uma imagem forte. Esse arranjo corre o risco de implodir quando a escolha for feita?
Eu e o governador Caiado ingressamos num partido que já tinha um candidato natural. O governador Ratinho Jr. aceitou nossa vinda, sem tentar nos bloquear. Todos sabiam onde estavam pisando. Acho que isso é prova suficiente que estamos no mesmo espírito, que é o de criar um projeto alternativo aos do lulismo e do bolsonarismo para o país. Se eu quisesse ser candidato a presidente a qualquer custo, teria ficado no PSDB, onde essa posição estava praticamente assegurada.
Qual será o critério de escolha e qual o prazo para que ela aconteça?
Um governador em exercício que pretenda disputar a presidência precisa deixar o cargo no começo de abril. Então, creio que esse é o horizonte. Ao longo de março teremos várias agendas do partido. Serão debates abertos entre os “candidatos a candidato” e encontros com lideranças. Com isso, vai ser possível encaminhar uma definição. O critério não será somente o das pesquisas. As pessoas ainda não estão sintonizadas nas eleições. Então, neste momento, precisamos ver com cautela a intenção de voto. As pesquisas trazem uma informação. Mas, no fim, decisões desse tipo são conduzidas pelas leituras de cenário e pelo faro político.
O que o PSD pode oferecer aos dois nomes que não forem escolhidos?
A tradição é que políticos estejam sempre pensando naquilo que podem levar. Mas essa não foi a lógica da nossa negociação. Se eu não for a opção, posso liderar a formação de um plano de governo ou ajudar na coordenação da campanha. Eventualmente, concorrer ao Senado pelo Rio Grande do Sul.
Em todo ano de eleições, surge o debate sobre uma terceira via na política brasileira. Os resultados nas urnas são sempre inexpressivos. Por que seria diferente desta vez?
Nos extremos da política existe paixão. Já o eleitor moderado é mais cético e não se mobiliza tanto. Para romper essa dinâmica, um candidato de centro, de terceira via, não pode contemporizar. Tem de representar um centro vivo, ativo, avançado, não algo morno e que fica no meio do caminho. Eu quero lançar uma candidatura para tensionar as discussões, para confrontar o Lula e o Flávio Bolsonaro, mostrando as inconsistências de cada um deles e a incapacidade dos grupos políticos que eles representam de entregar resultados para a sociedade. A oportunidade está no fato de que as duas últimas eleições criaram um estresse, um cansaço. Muita gente pretende votar em Lula só porque não suporta a ideia de que um Bolsonaro ocupe novamente o Palácio do Planalto. E vice-versa, há quem vote na direita apenas porque não engole mais o PT. Existe aí uma brecha para algo diferente ganhar força.




