A decisão do ministro André Mendonça de afastar o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, tem enorme potencial de alterar a disputa presidencial. Eleição e crise institucional se misturaram.
O que Mendonça fez
A decisão tem quatro componentes principais:
- Afastamento cautelar de Andrei Rodrigues (Diretor-Geral da PF) e esvaziamento do comando da PF;
- Afastamento de Leandro Almada (Diretor de Inteligência Policial) para neutralizar a estrutura que produziu os relatórios contra Mendonça;
- Proibição de novos relatórios de inteligência sobre magistrados;
- Abertura de procedimento na Corregedoria da PF;
A tese de Mendonça: os relatórios de inteligência que o monitoraram por mais de 30 dias são “apócrifos”, sem timbre oficial, sem metodologia, e representam um “desvio de finalidade” da atividade de inteligência.
A decisão no contexto eleitoral
Mendonça escolheu o dia seguinte ao 7/09 para não inflamar ainda mais as manifestações. Isso denota que ele tem preocupação de não ser identificado com agente político.
De todo modo, a decisão dá combustível para o campo bolsonarista porque valida a narrativa de que há uma “perseguição” a aliados de Bolsonaro e que Moraes está sendo investigado por seus excessos.
A crise escala em momento de empate eleitoral
Lula e Flávio Bolsonaro estão tecnicamente empatados no segundo turno: 41% a 41%, conforme pesquisa Quaest divulgada nesta segunda, 7.
Flávio Bolsonaro transformou a crise do STF no tema central de sua campanha. Sua estratégia de comunicação está tentando emplacar a narrativa de que ele não está mais disputando a eleição contra Lula — está disputando contra Lula e Moraes;
Lula ficou emparedado
Lula tentou se distanciar da crise, dizendo que “ninguém, em nome da democracia, pode usar sua posição para ganhos pessoais” . Mas ele é visto como aliado de Moraes.
Hoje, Lula consegue defender o STF sem arriscar-se a perder votos por ligação a Alexandre de Moraes? Detalhe: ministros já mandaram avisar a Lula que não aceitam ser abandonados politicamente.
Pelo menos em um primeiro momento, Lula está paralisado diante da escalada da crise.
Três cenários para os próximos dias
Crise contida: Fachin costura um acordo nos bastidores. Moraes e Mendonça recuam. A crise perde força. Flávio Bolsonaro perde o principal ativo de campanha.
Crise aguda: Fachin não consegue conter e o Plenário se divide. A decisão sobre Mendonça vai a julgamento. Flávio Bolsonaro usa a crise como combustível e Lula fica cada vez mais refém.
Crise sistêmica: A crise contamina as eleições e batalha de liminares cria espaço para desobediência civil. Tensão nos quartéis e algum tipo de intervenção externa (EUA) não pode ser descartada.
O cenário mais provável é o “agudo” — a crise vai se aprofundar nos próximos 30 dias, com impacto direto no resultado das eleições.
Conclusão
Dificilmente Mendonça gostaria de ser visto com ator político, mas isso se torna impossível em razão da contaminação que a eleição faz do assunto. A pressão sobre Fachin é enorme e ele não tem reais condições de lidar com isso. Por isso, o cenário agudo, de perda de controle e de previsibilidade, é o cenário mais provável.




