Desde a semana passada, a imprensa se dedica fortemente a desvendar um suposto paradoxo: se os indicadores econômicos estão bons, por que a percepção das pessoas sobre o governo e a economia voltou a piorar?
As hipóteses explicativas vão no seguinte sentido:
1. Percepção da inflação
Apesar de o IPCA ter voltado para a meta, a imprensa ressaltou que itens de consumo permanente – alimentos, energia e aluguel – continuam pressionando o orçamento. Além disso, há um acúmulo inflacionário carregado desde a pandemia que limita benefícios trazidos pelo crescimento recente da renda.
2. Programas sociais, subemprego e pejotização
Embora o desemprego esteja em níveis historicamente baixos (em torno de 5,6%), analistas destacaram a queda na qualidade das vagas. O crescimento da ocupação está muito ancorado em trabalho por aplicativos e informalidade. Isso gera insegurança financeira e falta de benefícios, o que impede a formação de uma percepção de “prosperidade”.
3. Juros reais e endividamento das famílias
A manutenção da taxa Selic em patamares elevados (atualmente em 15% ao ano) foi citada como um freio poderoso de percepção porque as famílias não conseguem refinanciar suas dívidas além de impedir o consumo de bens duráveis (eletrodomésticos, carros). Com as famílias muito endividadas, o aumento da renda serve para pagar juros passados em vez de gerar bem-estar presente.
4. Polarização política
As pesquisas mostraram que a percepção econômica varia drasticamente conforme a inclinação política e a religião. Entre eleitores de oposição e grupos evangélicos, a percepção de piora é muito superior à média nacional (chegando a 77% e 57% respectivamente). A imprensa interpreta que o “humor” sobre a economia tornou-se um marcador de identidade política, tornando as pessoas imunes aos dados oficiais do IBGE.
5. Impacto pouco relevante da isenção do IR
Analistas têm observado que a nova faixa de isenção IR gerou pouco efeito porque, embora represente incremento real de renda, não é suficiente para compensar os fatores listados anteriormente.
Tendo tudo isso em vista, a estratégia do governo de se autocelebrar, com base em indicadores da macroeconomia, pode esconder uma armadilha. Aos olhos da população, ele pode parecer descolado da realidade. O dever de casa para um presidente que ainda pretende se reeleger é compreender com mais dados e profundidade como as percepções sobre o dia a dia se formam e conectar o discurso às conclusões encontradas.




