Em uma eleição empatada como mostram todos os institutos de pesquisa, a abstenção pode influenciar o resultado. Em 2022, 32,2 milhões de eleitores (20,59%) deixaram de comparecer no segundo turno e o vencedor ganhou por uma margem de apenas 2 milhões de votos.
Utilizando dados de abstenção de 2022 e de pesquisas atuais, pode-se dizer que a abstenção não é politicamente neutra e possui efeitos assimétricos sobre cada candidato.
- Abstenção por grupo (base 2022 – fonte TSE)
Abstenção 2022 no Primeiro Turno: 20,95%
70+ anos | ~ 60% de abstenção no 1º turno | Voto facultativo; maior abstenção do país
Analfabetos | 52,08% | Voto facultativo; mais que o dobro da média
Ensino superior | 11,85% | Menor abstenção
Homens | 21,86% | Faltam mais que mulheres
Mulheres | 19,8% | Comparecem mais
Jovens 16-29 | 21,66% | Acima da média geral |
A abstenção atinge desproporcionalmente idosos, analfabetos, jovens e homens — grupos com perfis políticos distintos.
- O cruzamento com as intenções de voto atuais
Vantagens e ameaças para Lula
Idosos 60+: Lula tem 54,6% contra 43,7% de Flávio (Meio/Ideia). Como o voto é facultativo a partir dos 70, e a abstenção nessa faixa foi de ~60% em 2022 , esse é o principal ponto crítico para a campanha do petista. A direção já reconheceu isso explicitamente e intensificou apelos para que idosos compareçam, com Lula pedindo que “levantem e votem”;
Beneficiários do Bolsa Família: Lula tem 61% entre beneficiários no 2º turno (Nexus), contra 34% de Flávio. Esses eleitores concentram-se em menor escolaridade e baixa renda — grupos com abstenção acima da média. A queda de Lula nesse segmento (de 71% para 61%) já é um alerta, e a abstenção pode agravar a perda.
Vantagens e ameaças para Flávio
Jovens 16-24: Flávio tem 53,5% contra 40,4% de Lula (Meio/Ideia) . A abstenção entre jovens foi de 21,66% no 1º turno de 2022 .
Evangélicos: Flávio tem 67,4% contra 28,1% de Lula (Meio/Ideia) . Evangélicos concentram-se em periferias urbanas e classe média baixa, com abstenção potencialmente acima da média.
Eleitores de maior renda: Flávio tem 59,4% entre quem ganha mais de 5 salários mínimos (Meio/Ideia) . Esse grupo tem menor abstenção (ensino superior: 11,85% ), o que preserva votos de Flávio.
Região Sul: Flávio tem 62,7% contra 35,9% de Lula (Meio/Ideia) . A região Sul teve abstenção de 18,6% em 2022, abaixo da média nacional .
- Efeito líquido
Lula
Baixa escolaridade (até fundamental) | % do eleitorado ~35% | Vantagem de Lula: +20 pp | Abstenção estimada: ~25–30% | Perda potencial para Lula: ~1,8–2,1 pp;
60+ anos |% do eleitorado ~23,6% | Vantagem de Lula: +5 pp | Abstenção estimada ~30% | Perda potencial para Lula: + ~0,4 pp;
Efeito líquido ponderado: perda de 0,5 a 1,5 pp.;
A abstenção diminui a vantagem de Lula em cerca de 0,5 a 1,5 ponto percentual. Esse número é consistente com análises anteriores feitas em 2022, que estimaram o efeito da abstenção sobre Lula entre 0,1 e 0,7 ponto.
Flávio
Homens | % do eleitorado 47% | Vantagem de Flávio: +8 pp | Abstenção estimada: ~22% | Perda potencial para Lula: ~0,83 pp;
16 a 24 anos |% do eleitorado 12,5% | Vantagem de Lula: +2 pp | Abstenção estimada ~22% | Perda potencial: + ~0,1 pp.
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Conclusão
A abstenção atua de forma assimétrica sobre as duas candidaturas, e o saldo líquido é desfavorável a Lula.
Do lado de Lula, a base de apoio está concentrada nos grupos com maior propensão a faltar: eleitores de baixa escolaridade (analfabetos e “lê e escreve” com abstenção de 31% a 50%), idosos de 70+ anos (abstenção de ~60% por voto facultativo) e homens de baixa renda (abstenção de ~22%).
O efeito líquido é uma perda estimada de 0,5 a 1,5 ponto percentual — relevante em uma eleição decidida por margens de 0,5 a 2 pontos. A Nexus estima que Lula pode perder até 2 pontos. Ver mais: https://tinyurl.com/3b376ffj
Do lado de Flávio, a base está concentrada em grupos com menor abstenção: eleitores de ensino médio e superior (abstenção de 12% a 15%), adultos de 35 a 44 anos e mulheres de maior escolaridade. O efeito líquido é neutro a ligeiramente positivo (+0,1 a +0,3 pp) , com a única vulnerabilidade pontual entre jovens de 16 a 24 anos (abstenção de ~22%), onde sua vantagem de 2 pontos é marginalmente reduzida.
O fator que poderia compensar essa assimetria — o maior comparecimento feminino (80% vs. 78% dos homens) — dá a Lula um ganho de apenas 0,2 a 0,5 ponto percentual, e essa vantagem está encolhendo (de +22 pp em 2025 para +4 a +10 pp em 2026).
A abstenção é um vento contra Lula, não contra Flávio — e, em uma eleição no fio da navalha, esse vento pode ser suficiente para definir o resultado.




