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MUNDO

A paz no Oriente Médio e o novo mapa da energia, que favorece o Brasil

Conflito fez o mundo procurar novos fornecedores de petróleo e aumentou exportações brasileiras; reabertura de Ormuz vai demorar a ter efeito

Há 103 dias • por Carlos Graieb
A paz no Oriente Médio e o novo mapa da energia, que favorece o Brasil
Foto: Ilustração ChatGPT
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5:34

O acordo anunciado neste fim de semana entre Estados Unidos e Irã encerra formalmente um conflito que, embora breve, produziu efeitos duradouros, muito além dos campos de batalha do Oriente Médio. Ao longo de poucos meses, a guerra alterou rotas comerciais, reorganizou fluxos globais de energia, elevou os custos de transporte marítimo e acelerou movimentos de diversificação que vinham sendo discutidos há anos. Entre os beneficiários inesperados dessa transformação está o Brasil, cuja indústria petrolífera ganhou relevância estratégica em mercados antes dominados pelos produtores do Golfo Pérsico.

Os termos divulgados até agora indicam uma trégua ampla. O Irã concordou com a reabertura do Estreito de Hormuz e com o encerramento das hostilidades, enquanto os Estados Unidos se comprometem a suspender o bloqueio naval aos portos iranianos. A assinatura formal do memorando está prevista para os próximos dias na Suíça. O documento também abre uma janela de 60 dias para negociações mais detalhadas sobre o programa nuclear iraniano, a questão que, nominalmente, motivou o conflito. Apesar do otimismo demonstrado pelo presidente Donald Trump, muitos dos pontos mais sensíveis permanecem indefinidos.

Ormuz e o Brasil

O elemento mais importante do acordo para a economia mundial é justamente a reabertura de Ormuz. Cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta passa por esse estreito que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. O fechamento da rota revelou, de forma dramática, o grau de dependência da economia global em relação a um único gargalo geográfico. Países asiáticos, especialmente China, Índia, Japão e Coreia do Sul, foram os mais atingidos, não apenas pela redução da oferta de petróleo, mas também pelas dificuldades no transporte de gás natural liquefeito, fertilizantes e insumos petroquímicos.

A crise também acelerou a busca por alternativas. A China ampliou significativamente suas compras de petróleo brasileiro. A Índia fez o mesmo. Refinarias asiáticas passaram a valorizar barris que não dependiam das rotas do Golfo e que ofereciam menor risco geopolítico. O petróleo do pré-sal brasileiro, especialmente os campos de Tupi e Búzios, tornou-se particularmente atraente por combinar qualidade elevada com estabilidade de fornecimento. Em poucos meses, o Brasil consolidou-se como fornecedor complementar de relevância crescente para a Ásia.

Isso não significa que o país substituirá os produtores do Oriente Médio. A escala continua muito diferente. O Golfo permanece insubstituível para o abastecimento global. Mas a guerra fortaleceu uma percepção importante: diversificação tem valor econômico próprio. O Brasil emerge como um dos poucos exportadores capazes de ampliar gradualmente sua participação no mercado internacional sem carregar riscos políticos relevantes.

Lenta volta à normalidade

A reabertura de Ormuz tampouco significará uma volta imediata à normalidade. Cadeias logísticas foram interrompidas durante meses. Navios foram redirecionados para rotas alternativas. Estoques estratégicos foram consumidos. Diversos contratos de fornecimento precisaram ser renegociados. Além disso, parte da infraestrutura associada ao comércio energético regional sofreu danos durante o conflito. Estima-se que alguns segmentos da cadeia de suprimentos, especialmente fertilizantes, petroquímicos e gás natural, podem levar muitos meses para recuperar plenamente os níveis anteriores à guerra.

Mesmo reaberto, Ormuz dificilmente recuperará imediatamente a centralidade absoluta que possuía antes da crise. Omã ampliou sua importância como plataforma logística fora do estreito. Emirados Árabes Unidos aceleraram investimentos em oleodutos e terminais alternativos. Arábia Saudita intensificou o uso de rotas pelo Mar Vermelho. Japão, Índia e outros importadores estabeleceram novos fornecedores. A guerra criou alternativas que permanecerão após a paz.

Israel e questão nuclear

Alguns grandes desafios ficaram para depois. O primeiro deles envolve Israel. O governo de Benjamin Netanyahu já sinalizou que não se considera vinculado a todos os termos do entendimento negociado entre Washington e Teerã. Autoridades israelenses afirmaram que pretendem manter tropas em áreas ocupadas do sul do Líbano e continuarão agindo contra o Hezbollah sempre que julgarem necessário. A reação indica que a paz alcançada entre Estados Unidos e Irã não equivale necessariamente à pacificação de toda a região.

O segundo desafio é o programa nuclear iraniano. O acordo não resolveu a questão. Apenas adiou sua resolução. Permanecem indefinidos temas centrais como o prazo de suspensão do enriquecimento de urânio, o destino dos estoques já acumulados, os mecanismos de inspeção internacional e o eventual alívio de sanções econômicas. Tanto Washington quanto Teerã apresentam o entendimento como uma vitória diplomática, mas a verdade é que as negociações mais difíceis ainda nem começaram.

A guerra terminou, por enquanto. O rearranjo geopolítico e econômico provocado por ela está apenas começando. Nesse novo cenário, o Brasil surge em posição mais favorável do que quando os primeiros disparos foram feitos no Golfo.

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