Encerrada a eleição, o vencedor encontrará no Orçamento de 2027 o primeiro teste de suas intenções — e um Congresso já mobilizado pela disputa por suas próprias cadeiras de comando.
Para o Lula, uma vitória exigirá um esforço maior de recuperação da credibilidade fiscal. Será preciso demonstrar disposição para conter despesas depois de uma campanha de novas promessas e de um governo que apostou na expansão dos gastos. A dificuldade está em oferecer uma mudança de rumo numa agenda à qual o presidente tem resistido (e à qual o próprio PT não acredita).
Flávio chegará sob outra cobrança. No PL, seu partido, a avaliação é que haverá ajuste fiscal. A dúvida é a velocidade. Mas o senador ainda precisa esclarecer como pretende executá-lo depois de afastar, durante a campanha, medidas que atingiriam grandes despesas do Orçamento e de entrar na disputa por novas promessas de benefícios.
A escolha do ministro da Fazenda será o primeiro sinal de qual orientação prevalecerá. A definição dos responsáveis pela Casa Civil e pela articulação política mostrará se essa orientação terá condições de avançar.
Um nome capaz de conquistar a confiança do mercado pode melhorar as expectativas. Para transformar essa confiança em reformas, precisará de respaldo presidencial e de uma estrutura política capaz de negociar e dividir poder.
É nesse ponto que a agenda econômica encontrará a disputa pelo comando do Congresso.
A sucessão na Câmara já movimenta deputados e deverá consumir parte da atenção que o presidente eleito precisará mobilizar para suas primeiras medidas. Hugo Motta e Davi Alcolumbre estão no jogo, com capacidade de influenciar o ritmo e o alcance das negociações.
Petistas e interlocutores de fora do grupo de aliados de Flávio avaliam que o Orçamento e a própria agenda fiscal poderão servir de instrumentos de negociação para Motta e Alcolumbre.
O presidente eleito precisará do Congresso para sinalizar seu programa; os dirigentes do Legislativo poderão usar essa necessidade para negociar espaço na nova configuração de poder.
Uma vitória de Flávio abriria uma janela para apresentar reformas sob o impulso das urnas. Essa vantagem, porém, pode se dissipar se a montagem do governo produzir disputas internas ou se a negociação política ficar para depois da formulação econômica. O tamanho das bancadas próximas ao senador ajudará, mas não substituirá a construção de uma maioria com Centrão.
No cenário de reeleição de Lula, uma eventual PEC com desvinculação de receitas e gatilhos de controle de despesas poderá ser apresentada como resposta à pressão fiscal.
A questão será distinguir quanto desse pacote permitirá administrar o Orçamento e quanto efetivamente conterá o crescimento dos gastos. Sem enfrentar essa segunda tarefa, o esforço dificilmente entregará o ajuste esperado pelo mercado.
Os dois, portanto, terão de resolver contradições da campanha. Lula precisará mostrar disposição para mudar uma política que defende. Flávio terá de escolher entre preservar promessas e abrir espaço para o ajuste que seu partido considera certo. Os movimentos após a eleição darão a primeira sinalização dessas escolhas e do preço político que o vencedor aceitará pagar por elas.




