Às vésperas das eleições, o agronegócio já consolida uma agenda para os candidatos à Presidência. Demandas imediatas, como a renegociação das dívidas rurais, permanecem entre as prioridades dos produtores, mas o próximo governo também terá de enfrentar debates estruturais sobre o financiamento do setor, o seguro rural e o reposicionamento do Brasil em um cenário geopolítico cada vez mais desafiador.
Responsável por cerca de um quarto da riqueza produzida no país, o agronegócio movimentou R$ 3,2 trilhões em 2025, o equivalente a 25,1% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo levantamento do Cepea/Esalq-USP em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O setor também emprega 28,4 milhões de pessoas — 26,3% da população ocupada —, o que reforça seu peso na economia e na formulação das políticas públicas que deverão integrar os programas dos candidatos à Presidência e ao Congresso.
Para Rogério Boueri, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Fazenda e especialista em políticas públicas para o agronegócio, o processo eleitoral oferece uma oportunidade para incorporar essas discussões aos programas de governo. “Quando você mostra os problemas com clareza, já deu meio passo para a solução”, afirma.
Na avaliação do especialista, as prioridades variam conforme a perspectiva. Enquanto os produtores estão concentrados na renegociação das dívidas acumuladas nos últimos anos, o governo federal também precisará responder às mudanças no comércio internacional. “O reposicionamento geopolítico talvez seja a principal questão para o governo. Não é apenas a guerra no Irã. Há barreiras comerciais sendo adotadas por parceiros importantes, como União Europeia e China. O mundo está se reorganizando e o Brasil precisará responder a esse movimento”, diz. O tema também esteve no centro do Brasil de Ideias – Agro e Energia, realizado em julho pelo Grupo VOTO.
Agenda estrutural
Parte dessa agenda já foi consolidada pela CNA no documento elaborado para o Plano Agrícola e Pecuário 2026/2027. A entidade defende uma política agrícola plurianual, a ampliação dos mecanismos privados de financiamento, o fortalecimento do seguro rural, medidas para recuperar a saúde financeira dos produtores e a modernização do ambiente de crédito. Também figuram entre as prioridades o aumento dos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), a expansão dos fundos garantidores e o avanço da chamada Lei do Agro 3.
Boueri avalia que três grandes temas deverão ocupar o centro da política agrícola a partir de 2027, independentemente do resultado das urnas.
O primeiro é a transição para um novo modelo de financiamento. Hoje, o crédito rural depende fortemente de recursos subsidiados pelo governo, que equaliza parte dos juros cobrados pelos bancos. Com juros elevados, restrições fiscais e uma agropecuária em expansão, porém, esse modelo se torna cada vez mais oneroso e menos capaz de acompanhar as necessidades do setor. Na avaliação do especialista, será inevitável ampliar gradualmente a participação do mercado de capitais e de instrumentos privados de financiamento, como as Cédulas de Produto Rural (CPRs), os Fiagros e outros títulos do agronegócio.
Seguro rural
O segundo eixo é a reformulação do seguro rural. Hoje coexistem dois mecanismos principais: o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), no qual o governo subsidia parte do prêmio pago às seguradoras privadas, e o Proagro, em que a União assume diretamente parte do risco das perdas. Para Boueri, esse desenho protege pouco o produtor e, ao mesmo tempo, amplia a exposição das contas públicas.
“O seguro rural, da forma como funciona hoje, atende pouco ao produtor e gera um risco enorme para o orçamento federal. Um evento climático de grande escala pode produzir impactos fiscais relevantes. Será necessário integrar os sistemas e fortalecer o mercado privado de seguros”, afirma.
O terceiro desafio é o crescimento do endividamento dos produtores. Apesar das sucessivas safras recordes, a rentabilidade do campo foi pressionada nos últimos dois anos pela combinação de preços agrícolas menos favoráveis, custos elevados dos insumos e juros altos. O reflexo apareceu na capacidade de pagamento: levantamento da Serasa Experian mostra que 8,2% da população rural encerrou 2025 inadimplente, um ponto percentual acima do registrado no ano anterior.
Leia a íntegra da reportagem na edição 170 da revista V.




