A atualização anual da classificação de renda do Banco Mundial trouxe uma constatação incômoda para o Brasil. Quase 40 anos depois de o organismo criar seu ranking de economias, em 1987, o país continua estacionado no grupo de renda média-alta, sem conseguir ingressar no seleto grupo das nações de alta renda. Enquanto Vietnã, Filipinas, Sri Lanka, Jordânia e Micronésia avançaram de categoria neste ano, o Brasil permanece ao lado das grandes economias latino-americanas que ainda não romperam esse teto. Na região, apenas países menores, como Chile, Uruguai, Panamá e Costa Rica, conseguiram consolidar essa transição.
Armadilha
O próprio Banco Mundial ressalta que sua classificação mede renda, não desenvolvimento. Mudanças de categoria podem refletir crescimento econômico, mas também revisões demográficas ou estatísticas (como no caso da Jordânia). Ainda assim, a permanência prolongada na faixa intermediária deu origem a um conceito influente na economia contemporânea: a armadilha da renda média.
A ideia é que muitos países conseguem enriquecer graças ao investimento, à urbanização e à industrialização, mas passam a crescer lentamente quando esses motores se esgotam. A partir desse ponto, apenas ganhos sustentados de produtividade, inovação e qualidade institucional permitem alcançar o grupo das economias avançadas.
Fatores de desenvolvimento
A experiência internacional ajuda a entender o desafio brasileiro. A Coreia do Sul transformou-se em uma potência tecnológica apoiando-se em educação, abertura comercial e política industrial voltada à competitividade global. Mais recentemente, o Vietnã repetiu parte dessa trajetória ao integrar-se às cadeias internacionais de produção e ampliar rapidamente sua capacidade manufatureira. Na América Latina, o Chile combinou estabilidade macroeconômica e inserção internacional para sustentar sua condição de economia de alta renda.
Estudos recentes apontam que o Brasil desperdiçou a oportunidade de fazer essa transição durante o boom das commodities da década passada. Em vez de converter aquele ciclo favorável em ganhos permanentes de produtividade, o país experimentou desindustrialização precoce e permaneceu dependente de atividades intensivas em recursos naturais. As recomendações recorrentes incluem ampliar a concorrência, acelerar a incorporação de novas tecnologias, fortalecer a inovação e integrar mais profundamente a economia brasileira às cadeias globais de valor.
Ambiente institucional
Há, porém, um aspecto menos lembrado. Segundo o economista João Gabriel de Araujo Oliveira, o Brasil já dispõe de instrumentos para incentivar inovação; o problema é transformá-los em aumentos disseminados de produtividade. O agronegócio tornou-se referência mundial em tecnologia, mas esse dinamismo ainda alcança pouco a indústria e os serviços. O desafio, portanto, não é apenas investir mais, mas construir um ambiente institucional capaz de aproximar universidades e empresas, facilitar a difusão tecnológica e estimular maior competitividade.
Às vésperas das eleições, esse é o principal alerta trazido pelo ranking do Banco Mundial. O objetivo não deve ser ganhar posições na estatística, mas criar as condições para que produtividade, inovação e competitividade sustentem, finalmente, a passagem do Brasil para o grupo das economias de alta renda.




