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MUNDO

Queda de Orbán é o fim de uma era para a direita global

Derrota do húngaro em eleições representa revés para aliados como Trump e os Bolsonaro, que admiravam seu modelo de 'democracia iliberal'

Há 166 dias • por Carlos Graieb
Queda de Orbán é o fim de uma era para a direita global
Viktor Orbán, ao centro, concedeu eleição ao adversário ainda na noite de domingo: comparecimento recorde às urnas
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Nos últimos quinze anos, consolidou-se globalmente uma cultura de direita marcada por pautas comuns como “pátria e família”, uma rede própria de eventos — a exemplo da CPAC (Conservative Political Action Conference) — e algumas figuras dominantes. Até este domingo, 12, contava-se entre essas últimas o húngaro Viktor Orbán, que governou a Hungria por 16 anos, impondo sua agenda ao Congresso e controlando instituições do judiciário e da imprensa, por meio de aliados fiéis e uma máquina de propaganda. Ele chamava seu modelo de governo de “democracia iliberal”.

A derrota veio de forma incontestável. Com comparecimento recorde às urnas, superior a 77%, Orbán admitiu a perda ainda na noite eleitoral. O vencedor foi o jovem Péter Magyar, líder do partido Tisza (Respeito e Liberdade). Ele obteve supermaioria no Parlamento: 138 cadeiras contra 55 do Fidesz, de Orbán. A campanha de Magyar focou no aumento da corrupção e no enriquecimento do círculo político de Orbán. Explorou também a recessão econômica e o desemprego em alta — o pior em 10 anos na região.

Revés para aliados internacionais

Essa reviravolta representa um revés para aliados internacionais. Donald Trump enviou o vice-presidente J.D. Vance a Budapeste na véspera e prometeu ajuda econômica à Hungria em caso de vitória de Orbán. No Brasil, afeta a família Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro encontrou-se com Orbán em novembro de 2025, em Washington, onde o húngaro se declarou “firmemente ao lado dos Bolsonaros”.

Com 10 milhões de habitantes e uma economia em crise, a pequena Hungria havia assumido importância desproporcional na Europa devido ao perfil de Orbán. Ele é contrário à UE e ao “globalismo” e próximo de líderes personalistas como Trump e Vladimir Putin. Seu governo bloqueava sistematicamente o apoio da UE à Ucrânia — como um empréstimo de 90 bilhões de euros congelado em fevereiro de 2026. Tratava Kiev como “ameaça existencial” e adotava discurso alinhado ao Kremlin, inclusive vazando informações de reuniões da UE para Moscou.

Líderes europeus comemoraram abertamente: Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, chamou o resultado de “noite excepcional”, prevendo uma UE “mais forte”. Roberta Metsola, do Parlamento Europeu, reforçou: “O lugar da Hungria é no coração da Europa”.

Repercussão no Brasil

No Brasil, a repercussão seguiu as divisões do espectro político. A esquerda celebrou efusivamente. Petistas como José Guimarães (PT-CE) viram uma “vitória da democracia” contra o “obscurantismo”, ligando Orbán a Bolsonaro e prevendo repeteco em outubro. Lindbergh Farias (PT-RJ) falou em “página histórica”, com “participação recorde” derrubando 16 anos de autoritarismo. Rogério Correia (PT-MG) postou vídeos de festas em Budapeste, clamando “Bella Ciao no Brasil”.

Já a direita busca narrativas para suavizar o impacto. Grupos bolsonaristas de WhatsApp falam de um “captura externa pela elite global”, como a “Organização Soros”. Outros afirmam que Magyar é “de direita” (ex-aliado de Orbán).

Uma das principais lições da derrota pode estar relacionada ao envolvimento de políticos estrangeiros em eleições nacionais. Assim como ocorreu no Brasil em 2025, quando Trump conectou seu tarifaço a uma suposta perseguição política a Jair Bolsonaro e aumentou a popularidade de Lula, o apoio do presidente americano a Orbán parece pode ter mobilizado o eleitorado contrário.

Isso leva ao questionamento desse tipo de aproximação ostensiva. Será possível constatar em breve se Trump e os Bolsonaro aceitam essa leitura dos fatos.

Orbán e Eduardo Bolsonaro durante encontro nos EUA, em novembro de 2025: “democracia iliberal”

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