O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara um amplo pacote de medidas para estimular a economia e conter a alta da desaprovação a poucos meses da eleição. As iniciativas incluem desde subsídios diretos – como intervenções em preços de combustíveis e energia elétrica – até a expansão do crédito e de incentivos fiscais, em uma estratégia clássica de uso da máquina pública em ano eleitoral.
Uma estimativa da gestora ARX Investimentos, publicada nesta segunda, 6, pela Folha de S. Paulo, revela a dimensão desse movimento. Os estímulos à economia podem alcançar R$ 742 bilhões em 2026, o equivalente a 5,4% do PIB e mais que o dobro do observado no ano anterior. O impulso se deve sobretudo à ampliação do crédito via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ao crescimento do consignado privado, ao uso de fundos públicos e a medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda.
Do ponto de vista político, o objetivo é claríssimo: aumentar a renda disponível, sustentar o consumo e melhorar a percepção da população em relação ao governo. Estratégias semelhantes vêm sendo adotadas por diferentes administrações em contextos eleitorais (inclusive a de Jair Bolsonaro) para mitigar perdas de bem-estar no curto prazo.
Os efeitos negativos tendem a se manifestar mais adiante. Num cenário de economia já aquecida, o incentivo à demanda pressiona a inflação e dificulta a redução dos juros. Isso eleva o custo do crédito, aumenta o endividamento das famílias e reduz a eficácia dos próprios estímulos.
No campo fiscal, o quadro é ainda pior. A expansão de gastos públicos – muitos deles de difícil reversão política – piora a trajetória da dívida pública. A relação dívida/PIB, hoje próxima de 79%, pode ultrapassar 83% já no início de 2027. Ajustes futuros terão de ser mais duros.
Há ainda distorções microeconômicas associadas às chamadas “benesses”. Intervenções em preços administrados, como combustíveis e energia, e subsídios direcionados a grupos específicos alteram sinais de mercado, prejudicam a alocação eficiente de recursos e criam dependência de políticas públicas. Uma vez concedidos, esses benefícios tendem a se perpetuar, ampliando ainda mais a rigidez do gasto público.
O pacote em gestação não tem nada de novo – e nada de bom. Pode gerar ganhos políticos imediatos, ao fortalecer consumo e renda. Mas ele cria desequilíbrios que tendem a emergir no médio prazo: inflação mais resistente, juros elevados, deterioração fiscal e menor crescimento sustentável.




