Na edição de maio da Revista V, Lorice Scalise respondeu à pergunta dirigida a lideranças empresariais sobre “o Brasil que queremos”. Ela disse desejar “um país capaz de levar inovação a mais pacientes, de forma mais rápida e com menor custo social”. Nesta entrevista, a executiva aprofunda essa visão e aborda temas como pesquisa clínica, inteligência artificial, envelhecimento da população, incorporação de novas tecnologias e o futuro da medicina.
À frente da Roche Farma Brasil — farmacêutica que completa 130 anos de existência e atua no país há 95, sendo referência em áreas como oncologia e doenças raras —, Lorice nasceu em Borborema (SP), formou-se em Farmácia pela Unesp e ingressou na empresa em 2000 como representante de vendas, tornando-se a primeira mulher a comandar a operação brasileira após uma trajetória internacional. Mãe de três filhos, define-se como feminista por defender a igualdade de oportunidades e uma presença cada vez maior das mulheres nos espaços de decisão. Ao longo da conversa, ela também apresenta sua filosofia de liderança: “hard on facts, soft on people” (dura com os fatos, gentil com as pessoas).
A Roche completou 130 anos e está há 95 anos no Brasil. Como uma empresa centenária consegue permanecer na liderança de um setor tão competitivo?
A Roche consegue combinar tradição e capacidade permanente de renovação. Embora seja uma das maiores farmacêuticas do mundo, continua sendo uma empresa familiar, com a maior parte das ações nas mãos da família Hoffmann. Isso nos permite manter o foco no nosso propósito: desenvolver inovações para necessidades médicas ainda não atendidas. A liderança é consequência desse compromisso, não um objetivo em si. Também ajuda o fato de sermos uma empresa global, presente em mais de 150 países. Em momentos de crise econômica ou geopolítica, muitas companhias recuam; a Roche permanece. Estamos há quase um século na Argentina e há 95 anos no Brasil. Atravessamos guerras, mudanças políticas e diferentes ciclos econômicos sem abrir mão do compromisso com pacientes, inovação e reputação.
A pesquisa e o desenvolvimento ficam concentrados na sede ou são distribuídos entre os países em que a Roche atua?
A Roche possui grandes centros de pesquisa nos Estados Unidos, na Suíça, na Alemanha e no Japão, mas o desenvolvimento de um medicamento é cada vez mais global. As moléculas costumam nascer nesses centros e, depois, passam a contar com a participação de diversos países por meio da pesquisa clínica, inclusive nas fases iniciais. O Brasil integra essa rede, assim como outros mercados relevantes da América Latina.
Que exemplos concretos dessa atividade podem ser encontrados no Brasil?
A Roche investe mais de 10% do faturamento bruto no país em pesquisa e desenvolvimento, principalmente por meio da pesquisa clínica. Esse investimento beneficia a economia, fortalece a formação científica e, sobretudo, amplia o acesso dos pacientes a tratamentos inovadores, muitas vezes anos antes de sua disponibilidade comercial. Hoje conduzimos mais de 100 estudos clínicos no Brasil, em áreas como oncologia, doenças raras, oftalmologia, neurologia, imunologia e doenças cardiometabólicas. Também buscamos expandir os centros de pesquisa para além do Sul e do Sudeste, aumentando o acesso dos pacientes e incorporando uma diversidade genética que torna os estudos ainda mais relevantes.
O perfil genético da população influencia a escolha dos locais de realização dos estudos?
Sem dúvida. Algumas doenças apresentam maior incidência em determinados grupos populacionais, e isso precisa ser considerado na pesquisa clínica. A diversidade genética da população brasileira torna o país particularmente atrativo para esse tipo de estudo. Outro avanço importante foi a aprovação do novo marco legal da pesquisa clínica. A legislação trouxe maior segurança jurídica, definiu prazos mais claros para aprovação dos estudos e tornou o ambiente regulatório brasileiro mais competitivo em relação aos principais polos internacionais de pesquisa.
Qual foi a principal mudança trazida por essa legislação?
Ela organizou um conjunto de regras que antes estavam dispersas. Houve avanços importantes na previsibilidade dos processos de aprovação, na proteção da inovação e na definição das responsabilidades após o encerramento dos estudos clínicos. Com isso, o Brasil passou a oferecer um ambiente mais estável e competitivo para atrair pesquisas internacionais.
Como a senhora avalia a formação dos pesquisadores brasileiros?
Ela é excelente e plenamente compatível com a dos principais centros internacionais. Temos pesquisadores altamente qualificados, muitos com formação complementar no exterior, e isso é reconhecido pelas empresas globais. O Brasil exporta talentos e participa de redes internacionais de pesquisa com profissionais de altíssimo nível. O desafio está menos na formação das pessoas do que na capacidade de transformar conhecimento em inovação. Ainda investimos pouco na produção científica nacional, no desenvolvimento de tecnologias e de patentes brasileiras. Durante muito tempo exportamos matérias-primas e importamos produtos industrializados; hoje, em certa medida, exportamos conhecimento e depois o reimportamos transformado em tecnologia. Precisamos criar um ambiente mais favorável para que a ciência se desenvolva aqui.
Ao responder à pergunta sobre “o Brasil que queremos” na edição de junho da revista V, a senhora disse desejar “um país capaz de levar inovação a mais pacientes, de forma mais rápida e com menor custo social”. O que falta para isso acontecer?
O principal desafio é construir políticas de Estado, e não apenas políticas de governo. A inovação exige continuidade. Bons programas precisam ser preservados independentemente de quem os criou. A Estratégia de Saúde Digital é um exemplo positivo: começou em uma administração, foi mantida na seguinte e continuou evoluindo. Na saúde, ainda temos dificuldade em consolidar essa cultura. Com frequência, uma nova gestão tenta recomeçar do zero. O correto seria identificar o que funciona, aperfeiçoar essas iniciativas e dar continuidade a elas.




