Buscar
REVISTA V

Renan Santos: “Sou infinitamente superior ao Lula”

Nova edição da revista V traz na capa o pré-candidato à presidência pelo partido Missão, que nasceu do Movimento Brasil Livre (MBL)

Há 111 dias • por Carlos Graieb
Renan Santos: “Sou infinitamente superior ao Lula”
Renan Santos. Foto: Walda Marques/Grupo VOTO
Ouça este conteúdo Renan Santos: “Sou infinitamente superior ao Lula”
6:49

Aos 42 anos, Renan Santos é a novidade política mais visível desta eleição presidencial. Conhecido como um dos fundadores e principais líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), que participou das articulações que culmina­ram no impeachment de Dilma Rousseff, ele agora está à frente do Missão, legenda registrada pelo Tribunal Supe­rior Eleitoral em novembro de 2025. O partido nasceu de uma combinação incomum de ativismo digital, formação de militância e elaboração programática. Seu principal documento, o Livro Amarelo — atualmente dividido em seis fascículos com títulos como “De Onde Viemos” e “Brasil Poderoso” — reúne as teses do grupo sobre os proble­mas nacionais. É dali que saem propostas como um am­plo ajuste fiscal, a revisão do modelo federativo e a ado­ção do chamado Direito Penal do Inimigo contra facções criminosas.

Embora esteja muito atrás de Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto, Santos aparece empa­tado ou ligeiramente à frente de governadores experien­tes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema em levantamen­tos recentes. Em uma disputa que tende a ser decidida por margens estreitas, esse capital político pode ter peso relevante, mesmo que não cresça significativamente. Situado à direita, o Missão rompeu há tempos com o bolsona­rismo para construir uma identidade própria. Santos evita responder se apoiaria Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno — o MBL chegou a defender voto nulo em 2022 — e demonstra pensar em horizontes mais longos. Seu estilo é provocador e autoconfiante. “Sim. Incompara­velmente superior ao Lula”, responde ao ser questionado sobre sua própria liderança. Renan Santos vem fazendo um périplo pelo Brasil, devidamente documentado em suas redes sociais. Ele conversou com a revista V a bordo de um barco que voltava do arquipélago de Mara­jó, onde visitou Melgaço, município com o pior índice de desenvolvimento humano (IDH) do país. Leia abaixo um trecho da entrevista:

O que você viu nessa viagem ao Pará e o que está aprendendo como pré-candidato, de maneira geral, nesse périplo pelo Brasil?

Essa viagem foi muito impactan­te. O Pará é um desastre logístico. Há uma tensão permanente entre órgãos federais, interesses econô­micos e questões ambientais. Tam­bém existe uma elite local muito poderosa, que controla boa parte das estruturas da região. Visitei o Marajó, incluindo Melgaço, e foi uma das situações mais chocantes que já presenciei. O Brasil é muito mais complexo e problemático do que normalmente imaginamos. Existem camadas de dificuldades que não aparecem no debate público. As via­gens têm servido justamente para isso: compreender melhor a realida­de brasileira. Em alguns lugares, as soluções são mais simples do que parecem. No Sertão nordestino, por exemplo, os problemas me parecem mais solucionáveis do que em deter­minadas regiões do Maranhão e do Norte.

O Sertão sempre foi símbolo da mi­séria brasileira. Por que você acha que solucionar os problemas da­quela região é menos complicado?

Depois de conhecer outras regi­ões, percebi que existem lugares em situação ainda mais grave. O Mara­nhão, por exemplo, apresenta níveis de pobreza mais profundos. Embora esteja no Nordeste, possui caracte­rísticas muito próximas da região Norte. Ali se concentram problemas fundiários, conflitos institucionais e dificuldades logísticas mais severas. No Nordeste, de modo geral, já se sabe o que precisa ser feito e quais são os obstáculos. Em partes da re­gião Norte, isso ainda não está claro

Por quais regiões você já passou?

Como pré-candidato, já percorri praticamente todo o país. Falta ape­nas uma incursão mais ampla pela região Centro-Oeste.

O que mais chamou sua atenção nesse Brasil que você está obser­vando agora com outro olhar?

Confirmou-se uma tese que nós defendemos há bastante tempo: parte importante dos problemas políticos brasileiros nasce nas pe­quenas cidades. Existe um sistema político que se alimenta da pobreza e da dependência econômica dessas localidades. Durante muito tempo eu considerava exagerada a ideia de que certos grupos se beneficiavam da manutenção da miséria. Hoje vejo que existe, de fato, um sistema que se retroalimenta da improdutivi­dade e da dependência. É um circui­to fechado extremamente difícil de romper.

Vocês planejam fundir municí­pios, certo?

Sim. Há municípios demais no Brasil. Muitos deles são economica­mente inviáveis e dependem quase integralmente de transferências fe­derais. Isso acaba fortalecendo es­truturas políticas pouco produtivas. A fusão de municípios é uma parte da solução. A outra é o que chama­mos de Lei de Responsabilidade Ge­rencial.

Qual seria o coração dessa lei?

Recalibrar os incentivos da ges­tão pública. Municípios dependentes de recursos federais passariam a ser acompanhados mais de perto e avaliados por indicadores objetivos, como atividade econômica, sanea­mento, educação e infraestrutura. Quem melhora os indicadores é premiado. Quem não entrega resul­tados pode sofrer sanções políticas. Hoje o sistema premia quase exclu­sivamente a capacidade eleitoral. Nossa proposta é premiar também a capacidade administrativa.

Isso não exige uma grande refor­ma constitucional? Você está me­xendo na lógica federativa.

Nem tudo exige mudança consti­tucional. A fusão de municípios exi­giria alterações na Constituição. Já a Lei de Responsabilidade Gerencial pode ser implementada por meio de legislação ordinária.

Mas os repasses federativos não passariam a ter condicionantes?

Não exatamente. O foco principal é fiscalização e responsabilização. O prefeito seria avaliado e eventual­mente punido pela legislação eleito­ral caso não entregasse resultados mínimos. Da mesma forma, os parti­dos seriam recompensados quando seus gestores apresentassem bom desempenho. A lógica é criar incen­tivos corretos para a gestão pública.

Leia a íntegra da entrevista e da edição 169 da revista V.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER