Aos 42 anos, Renan Santos é a novidade política mais visível desta eleição presidencial. Conhecido como um dos fundadores e principais líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), que participou das articulações que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff, ele agora está à frente do Missão, legenda registrada pelo Tribunal Superior Eleitoral em novembro de 2025. O partido nasceu de uma combinação incomum de ativismo digital, formação de militância e elaboração programática. Seu principal documento, o Livro Amarelo — atualmente dividido em seis fascículos com títulos como “De Onde Viemos” e “Brasil Poderoso” — reúne as teses do grupo sobre os problemas nacionais. É dali que saem propostas como um amplo ajuste fiscal, a revisão do modelo federativo e a adoção do chamado Direito Penal do Inimigo contra facções criminosas.
Embora esteja muito atrás de Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto, Santos aparece empatado ou ligeiramente à frente de governadores experientes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema em levantamentos recentes. Em uma disputa que tende a ser decidida por margens estreitas, esse capital político pode ter peso relevante, mesmo que não cresça significativamente. Situado à direita, o Missão rompeu há tempos com o bolsonarismo para construir uma identidade própria. Santos evita responder se apoiaria Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno — o MBL chegou a defender voto nulo em 2022 — e demonstra pensar em horizontes mais longos. Seu estilo é provocador e autoconfiante. “Sim. Incomparavelmente superior ao Lula”, responde ao ser questionado sobre sua própria liderança. Renan Santos vem fazendo um périplo pelo Brasil, devidamente documentado em suas redes sociais. Ele conversou com a revista V a bordo de um barco que voltava do arquipélago de Marajó, onde visitou Melgaço, município com o pior índice de desenvolvimento humano (IDH) do país. Leia abaixo um trecho da entrevista:
O que você viu nessa viagem ao Pará e o que está aprendendo como pré-candidato, de maneira geral, nesse périplo pelo Brasil?
Essa viagem foi muito impactante. O Pará é um desastre logístico. Há uma tensão permanente entre órgãos federais, interesses econômicos e questões ambientais. Também existe uma elite local muito poderosa, que controla boa parte das estruturas da região. Visitei o Marajó, incluindo Melgaço, e foi uma das situações mais chocantes que já presenciei. O Brasil é muito mais complexo e problemático do que normalmente imaginamos. Existem camadas de dificuldades que não aparecem no debate público. As viagens têm servido justamente para isso: compreender melhor a realidade brasileira. Em alguns lugares, as soluções são mais simples do que parecem. No Sertão nordestino, por exemplo, os problemas me parecem mais solucionáveis do que em determinadas regiões do Maranhão e do Norte.
O Sertão sempre foi símbolo da miséria brasileira. Por que você acha que solucionar os problemas daquela região é menos complicado?
Depois de conhecer outras regiões, percebi que existem lugares em situação ainda mais grave. O Maranhão, por exemplo, apresenta níveis de pobreza mais profundos. Embora esteja no Nordeste, possui características muito próximas da região Norte. Ali se concentram problemas fundiários, conflitos institucionais e dificuldades logísticas mais severas. No Nordeste, de modo geral, já se sabe o que precisa ser feito e quais são os obstáculos. Em partes da região Norte, isso ainda não está claro
Por quais regiões você já passou?
Como pré-candidato, já percorri praticamente todo o país. Falta apenas uma incursão mais ampla pela região Centro-Oeste.
O que mais chamou sua atenção nesse Brasil que você está observando agora com outro olhar?
Confirmou-se uma tese que nós defendemos há bastante tempo: parte importante dos problemas políticos brasileiros nasce nas pequenas cidades. Existe um sistema político que se alimenta da pobreza e da dependência econômica dessas localidades. Durante muito tempo eu considerava exagerada a ideia de que certos grupos se beneficiavam da manutenção da miséria. Hoje vejo que existe, de fato, um sistema que se retroalimenta da improdutividade e da dependência. É um circuito fechado extremamente difícil de romper.
Vocês planejam fundir municípios, certo?
Sim. Há municípios demais no Brasil. Muitos deles são economicamente inviáveis e dependem quase integralmente de transferências federais. Isso acaba fortalecendo estruturas políticas pouco produtivas. A fusão de municípios é uma parte da solução. A outra é o que chamamos de Lei de Responsabilidade Gerencial.
Qual seria o coração dessa lei?
Recalibrar os incentivos da gestão pública. Municípios dependentes de recursos federais passariam a ser acompanhados mais de perto e avaliados por indicadores objetivos, como atividade econômica, saneamento, educação e infraestrutura. Quem melhora os indicadores é premiado. Quem não entrega resultados pode sofrer sanções políticas. Hoje o sistema premia quase exclusivamente a capacidade eleitoral. Nossa proposta é premiar também a capacidade administrativa.
Isso não exige uma grande reforma constitucional? Você está mexendo na lógica federativa.
Nem tudo exige mudança constitucional. A fusão de municípios exigiria alterações na Constituição. Já a Lei de Responsabilidade Gerencial pode ser implementada por meio de legislação ordinária.
Mas os repasses federativos não passariam a ter condicionantes?
Não exatamente. O foco principal é fiscalização e responsabilização. O prefeito seria avaliado e eventualmente punido pela legislação eleitoral caso não entregasse resultados mínimos. Da mesma forma, os partidos seriam recompensados quando seus gestores apresentassem bom desempenho. A lógica é criar incentivos corretos para a gestão pública.




