A jornalista Daniela Lima publicou, em sua coluna no portal UOL, que o advogado que assumiu a negociação da delação premiada de Daniel Vorcaro é o mesmo que representa o ex-presidente da Reag.
Ela nota que, entre advogados, essa situação parecia incompatível, considerando que ambos estão denunciados e um poderia dedurar o outro. No entanto, a junção de dois acusados sob a mesma representação judicial sugere que uma delação ampla pode estar a caminho.
Daniela Lima detectou, com agudeza, que uma “colaboração do apocalipse” vem aí.
Corrupção
É muito difícil incluir esse tipo de informação em análise política, porque ela está no campo do imponderável e não é possível fazer uma previsão de encadeamento ou impacto de eventos.
O que dá para fazer, no entanto, é realizar uma avaliação de contexto, buscando entender que tipo de estímulo o ambiente político está dando ao eleitor.
Nesse sentido, parece inevitável não buscar um paralelo com a operação Lava Jato, que estava muito aquecida em 2014. Seu momento mais crítico ocorreu há três dias da eleição daquele ano, quando a revista Veja publicou uma capa com a frase: “Eles sabiam de tudo”, baseada em um depoimento de Alberto Youssef que implicava a ex-presidente Dilma Rousseff e Lula. Pode-se dizer que, à época, a Lava Jato incluiu definitivamente o tema “corrupção” na agenda do eleitor, que passou a enxergar no voto um ato moralizante.
Diferenças
Afirmar que 2026 pode reproduzir um filme repetido é uma tentação, mas não é correto.
Primeiro pelas características dos escândalos. Em 2014 o problema estava na Petrobras e em denúncias envolvendo construtoras. A questão das obras estava no foco. Hoje, as denúncias estão mais próximas das pessoas, pois envolveu descontos ilegais de aposentados, fundos de previdência e investidores, com danos mais espalhados.
Outra diferença é a identificação dos alvos. Em 2014 o PT foi o depositário de quase toda carga de revolta, o discurso se voltou contra o aparelhamento do Estado e os beneficiários diretos eram mais nítidos para a população.
Na conjuntura atual, a culpa não está concentrada na gestão Lula, nem no poder Executivo, permitindo que se faça uma batalha de narrativas entre os lados, embora se saiba que a parcela maior de dano sempre recai sobre quem está no poder.
Judiciário atingido
Por último e mais importante: na Lava Jato, havia confiança no Judiciário e nos órgãos de apuração, uma condição que não existe hoje.
Na cobertura do tema da delação, por exemplo, é nítido o ceticismo da imprensa em relação à qualidade e à efetividade da possível colaboração de Vorcaro e muitos cravam que membros do Judiciário envolvidos serão poupados.
Na batalha de liminares, ministros do STF mostram ter entendimentos completamente distintos do que deve ser feito. Chama atenção no noticiário de bastidores a divisão interna e a existência de grupos adversários no Judiciário, na PGR e na PF. Se puderem, eles não hesitarão em sabotar uns aos outros.
Esse contexto é muito diferente do encontrado em 2014, o que sugere evitar comparações descuidadas. O efeito disso sobre o eleitor é desconhecido e mesmo um comportamento antissistema não é garantido, considerando que a disfuncionalidade institucional é, antes de tudo, um grande convite ao cinismo.




