Lula precisa captar 62% dos votos da terceira via para virar. Hoje, capta apenas 23,79% — um terço do necessário. Flávio precisa de 38,06% e já capta 38,55% — ligeiramente acima do necessário. A tarefa de Lula é muito difícil, mas não impossível. A campanha já reconheceu isso e está mirando os abstentes.
A “mudança de era”
Uma experiente analista de Brasília disse ontem após o fim da apuração: “não houve uma mudança de governo, mas uma mudança de era.”
Esse superlativo se justifica em razão da dimensão do avanço da direita em todas as frentes e uma renovação geracional significativa.
Figuras como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Marília Campos, Erika Hilton, Carol de Toni e Marcelo Van Hatten são figuras que vieram para ficar pelas próximas décadas.
Todo esse volume de mudanças vai demandar muito tempo de análise. Enquanto isso, é preciso focar nas questões de curto prazo — e a principal delas é: Lula consegue virar?
Os números
Fazendo uma conta simples, considerando apenas os resultados de primeiro turno, Lula precisa obter 62% dos votos de Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado — ou 5,7 milhões de votos a mais do que recebeu no primeiro turno.
Flávio, por sua vez, precisa captar “apenas” 38,06% dos votos da terceira via.
O maior reservatório de votos está dividido assim:
Augusto Cury: 3,45 mi (37,01%)
Renan Santos: 2,68 mi (28,71%)
Ronaldo Caiado: 2,61 mi (27,96%)
Romeu Zema: 450 mil (4,82%)
De acordo com a última pesquisa Nexus publicada na semana passada, que tem uma pergunta de transmissão de votos declarada:
• Lula receberia hoje 23,79% dos votos que estão em disputa (1/3 do que precisa). Ele teria 30% de Cury, 13% de Renan Santos e 32% de Caiado — e nada de Zema;
• Flávio receberia 38,55%. Ele teria 38% de Cury, 43% de Renan, 32% de Caiado e 66% de Zema.
• O restante migraria para o voto nulo.
Não é fácil, portanto, a tarefa do presidente Lula. Especialmente porque todos os candidatos se localizam no espectro da direita. Por isso, no discurso de ontem, feito ao final da apuração, Lula falou mais em buscar quem se absteve do que em procurar os outros candidatos.
A percepção dos erros cometidos
Resumidamente, Lula perdeu por descumprir três promessas feitas em 2022:
- Não fez um governo de centro: em vários momentos apelou para o discurso de classe, relegou aliados desse espectro político a posições marginais no governo e caminha para terminar a sua gestão com Guilherme Boulos (PSOL) como principal ministro palaciano.
- Não pacificou o país: Lula não buscou unir a sociedade; pelo contrário, estimulou a polarização acreditando que era a melhor maneira de pavimentar sua reeleição — inclusive preferindo enfrentar Flávio Bolsonaro na eleição.
- Não conseguiu cumprir as expectativas econômicas da população: a percepção de melhoria do emprego e da renda é rapidamente anulada pelo medo do empobrecimento trazido pelos juros altos, que dificultam a capacidade de financiamento das pessoas e das empresas.
O problema do presidente Lula é que nada disso se resolve com campanha. São questões estruturantes que vêm sendo apontadas por analistas há muito tempo. Nesse sentido, ninguém da campanha pode dizer que foi pego de surpresa, considerando que a aprovação do governo está no vermelho desde janeiro de 2025.
Para acompanhar
Tese: Lula precisa de 62% da terceira via, mas capta 23,79%. Flávio precisa de 38,06% e capta 38,55%. A tarefa de Lula é quase o dobro da de Flávio.




