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POLíTICA

Lula e Flávio Bolsonaro brigam em ringue armado por Trump

Possível imposição de novas tarifas ao Brasil acirra confronto entre candidatos e mostra que geopolítica pode ter peso inédito nas eleições

Há 116 dias • por Carlos Graieb
Lula e Flávio Bolsonaro brigam em ringue armado por Trump
Flávio Bolsonaro e Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca. Foto: Reprodução/Instagram Flávio Bolsonaro
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5:08

A política dos Estados Unidos em relação ao Brasil está se tornando, de maneira inédita, um fator significativo nas eleições de 2026. O tema ocupou parte relevante dos debates do Brasil de Ideias – Análise Eleições 2026, realizado nesta terça-feira, 2, pelo Grupo VOTO. No encontro, o diretor de Public Affairs do Grupo In Press, Fabio Zambelli, resumiu essa percepção: “nunca uma eleição brasileira esteve tão sujeita às oscilações do cenário externo”.

O evento ocorreu um dia após os EUA divulgarem a proposta de impor nova tarifa de 25% sobre um amplo conjunto de produtos brasileiros. O fato dominou o noticiário ao longo do dia e acirriou o confronto entre dois principais candidatos à presidência, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Seção 301

A iniciativa americana decorre da conclusão de uma investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

O relatório sustenta que políticas brasileiras impõem obstáculos ou prejuízos ao comércio americano. Entre os pontos destacados está o tratamento dado ao Pix, apontado como uma forma de favorecimento estatal que prejudicaria concorrentes privados. Há também alegações de combate insuficiente à pirataria, lentidão na análise de patentes, desmatamento ilegal, falhas na aplicação de leis anticorrupção e barreiras de acesso a mercados.

O documento recomenda a aplicação de uma tarifa de 25% sobre exportações brasileiras, embora uma extensa lista de exceções preserve setores considerados estratégicos, como aeronaves, terras raras, café, carne bovina e diversos produtos minerais e agrícolas. As medidas ainda passarão por consultas públicas e audiências antes de eventual implementação.

Lula no ataque

O presidente Lula aproveitou o episódio para vincular diretamente a medida americana ao principal adversário na disputa presidencial. Em declarações feitas durante agenda em Goiás, o petista associou a nova ameaça tarifária à recente visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca. Ele sugeriu que o senador teria incentivado ações americanas contra o Brasil. Recordou ainda episódio do ano passado, quando o senador e seu irmão Eduardo trataram como acerto a primeira leva de tarifas de Trump contra produtos brasileiros.

O petista procurou enquadrar a discussão como uma questão de soberania nacional. Disse que governo optará pela negociação técnica com Washington, em vez da confrontação política. Lula busca transformar o tarifaço em evidência de que os interesses políticos do bolsonarismo estariam alinhados aos da Casa Branca, em detrimento dos interesses econômicos brasileiros.

A reação de Flávio

Flávio Bolsonaro reagiu tentando neutralizar o desgaste e inverter a narrativa. Em entrevistas concedidas ao longo do dia, afirmou que solicitou pessoalmente a Donald Trump que não taxasse empresas brasileiras. Ele acusou Lula de fazer “terrorismo”, ao sugerir ameaças ao Pix ou ao comércio nacional. Sustentou ainda que um futuro governo de direita teria melhores condições de negociar com Washington, reiterando a defesa de uma aproximação estratégica com os EUA, sem abandonar as relações comerciais com a China.

O episódio ocorre poucos dias depois de um momento considerado positivo para a campanha de Flávio Bolsonaro. Após sua visita aos Estados Unidos, a Casa Branca anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas globais. A medida diz respeito a um dos temas mais favoráveis à direita brasileira: a segurança pública. Trata-se de área em que o governo Lula enfrenta dificuldades recorrentes e na qual o bolsonarismo construiu boa parte de sua identidade política. O enquadramento das facções como grupos terroristas permitiu a Flávio Bolsonaro apresentar-se como interlocutor capaz de mobilizar apoio internacional para o combate ao crime organizado.

Os acontecimentos desta terça-feira, contudo, podem ter reduzido ou até neutralizado esse ganho político. A classificação do PCC e do Comando Vermelho ajudava Flávio a reforçar credenciais em segurança pública. A ameaça de novas tarifas americanas oferece ao governo uma oportunidade de questionar a proximidade entre o bolsonarismo e Donald Trump.

Também não foi favorável o fato de o presidente americano ter publicado em sua rede social, justamente nesta terça, uma mensagem elogiosa a Flávio Bolsonaro, relembrando o encontro da semana passada. Em meio à controvérsia sobre o tarifaço, o gesto acabou reforçando a percepção de alinhamento entre ambos.

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