O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025 foi divulgado nesta quarta-feira, 5. Os resultados mostram que o país recuperou boa parte das perdas provocadas pela pandemia e voltou a avançar em todas as etapas da educação básica. Nos anos iniciais do ensino fundamental, a rede pública alcançou Ideb 6,1, superando a meta nacional; nos anos finais, o índice passou para 5,0; e, no ensino médio — principal gargalo do sistema educacional brasileiro —, chegou a 4,3, ainda distante da meta de 5,2. Na divulgação dos resultados, o Ministério da Educação destacou a recuperação da aprendizagem e afirmou que o próximo desafio será elevar a qualidade do ensino, especialmente no ensino médio, por meio da expansão da educação em tempo integral e do ensino médio integrado.
Quase simultaneamente, o Todos Pela Educação, uma das principais entidades da sociedade civil a monitorar as políticas educacionais, divulgou uma nota técnica que reconhece os avanços, mas pede alguma cautela. A entidade considera que o Brasil vive seu melhor momento desde a criação do Ideb e, de fato, conseguiu recuperar o déficit causado pela pandemia. Ao mesmo tempo, afirma que essa recuperação ocorreu sobre uma base ainda insuficiente: o país praticamente universalizou o acesso à escola, aperfeiçoou sua governança educacional e consolidou instrumentos importantes de avaliação e financiamento, mas continua formando poucos estudantes com níveis adequados de aprendizagem, sobretudo no ensino médio. Para a organização, o desafio da próxima década está centrado em elevar a qualidade da aprendizagem e reduzir as desigualdades entre redes e regiões.
É sobre esse pano de fundo que os cinco candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto começam a apresentar suas propostas de governo. Embora proponham caminhos bastante distintos na educação, Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos terão de responder ao mesmo desafio revelado pelo Ideb: fazer com que um sistema que conseguiu universalizar o acesso à escola também se torne capaz de garantir aprendizagem compatível com as necessidades de desenvolvimento do país.
Lula: educação integral como eixo do próximo mandato
A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva definiu a educação em tempo integral como sua principal bandeira para a área. A intenção declarada é caminhar para a universalização dessa modalidade, mediante construção de novas escolas, adaptação das unidades existentes e elaboração de planos estaduais e municipais supervisionados pelo Ministério da Educação. A candidatura também procura responder antecipadamente a uma crítica recorrente sobre financiamento: defende retirar investimentos em infraestrutura escolar dos limites do arcabouço fiscal e utilizar recursos previstos pelo novo Plano Nacional de Educação, especialmente provenientes dos royalties do petróleo.
A educação integral aparece no discurso de Lula simultaneamente como política educacional, política social, política de segurança pública e instrumento de proteção das mulheres e das famílias trabalhadoras. Em seus pronunciamentos mais recentes, o presidente também passou a associar educação à ciência, à inteligência artificial e à formação tecnológica.
A ampliação do ensino em tempo integral é bandeira quase unânime entre especialistas. A incógnita reside na capacidade de financiamento e execução em larga escala dessa política.
Flávio Bolsonaro: qualificação profissional e o peso do legado
A candidatura de Flávio Bolsonaro procura reposicionar a educação dentro do campo da direita. Em vez de concentrar o debate nas chamadas guerras culturais, suas propostas conhecidas enfatizam ensino técnico, empregabilidade, qualificação profissional, aproximação entre escolas e empresas e ampliação das creches.
Ao mesmo tempo, preserva bandeiras tradicionais do bolsonarismo, como a regulamentação do homeschooling, e discute propostas de flexibilização das vinculações constitucionais de gastos com educação, inseridas em uma agenda mais ampla de reforma fiscal.
Inevitavelmente, o candidato será confrontado com legado do governo Jair Bolsonaro na área educacional. O período foi marcado forte instabilidade no Ministério da Educação, crises administrativas no Inep, ministerial, dificuldades de coordenação nacional e priorização de agendas periféricas em relação aos problemas estruturais da educação, como a implantação do homeschooling.
Isso não significa que uma eventual presidência Flávio Bolsonaro vá obrigatoriamente repetir o mesmo padrão. A ênfase atual em qualificação profissional e empregabilidade, aponta para um foco diferente do predominante entre 2019 e 2022. Ainda assim, a comparação com a experiência do governo de Jair Bolsonaro deverá acompanhar a campanha.
Romeu Zema: gestão e inovação
Romeu Zema chega ao debate credenciado pelo desempenho de Minas Gerais no Ideb 2025. O estado registrou seus melhores resultados históricos nas três etapas da educação básica. Figura entre aqueles que mais evoluíram desde a avaliação anterior do Ideb, especialmente nos anos finais do ensino fundamental, consolidando-se como um dos destaques nacionais do indicador.
Seu programa enfatiza expansão do ensino técnico, fortalecimento da educação integral mediante parcerias, melhoria da infraestrutura escolar e maior aproximação entre universidades, inovação e desenvolvimento tecnológico.
Uma de suas propostas mais originais consiste em transferir a regulação do ensino superior para o Ministério da Ciência e Tecnologia, aproximando a política universitária da agenda nacional de inovação. A candidatura procura associar os avanços obtidos por Minas à ideia de gestão eficiente e continuidade administrativa.
Ronaldo Caiado: Goiás como vitrine
Ronaldo Caiado faz da experiência de Goiás sua principal credencial na área educacional. O estado ocupa a 2ª colocação nacional no ensino médio e figura também entre os líderes do país nos anos iniciais e finais do ensino fundamental, consolidando-se como uma das redes públicas de melhor desempenho no Ideb 2025.
Embora seu programa nacional ainda esteja em consolidação, a campanha apresenta os resultados de Goiás como demonstração de que políticas consistentes de gestão podem produzir melhorias sustentadas na aprendizagem. O modelo desenvolvido no estado combina expansão do ensino integral, integração entre ensino médio e educação profissional, políticas de permanência escolar e continuidade administrativa ao longo de diferentes ciclos de governo.
Renan Santos: aprendizagem, mérito e disciplina
O programa de Renan Santos concentra-se em reformas estruturais da educação básica. As propostas incluem alfabetização pelo método fônico, revisão curricular, fortalecimento da disciplina escolar, avaliação permanente de professores e estudantes, fim da progressão continuada e adoção de mecanismos de responsabilização das escolas por desempenho.
Também defende difundir nacionalmente práticas inspiradas na experiência do Ceará, fortalecer a educação técnica e aproximar o ensino superior das necessidades produtivas do país.
Seu programa coloca a aprendizagem no centro do debate, em sintonia com o diagnóstico de que o principal problema da educação brasileira é a qualidade do ensino e não mais o acesso. Em contrapartida, dedica menor atenção às questões de financiamento, coordenação federativa e governança institucional.




